segunda-feira, 24 de março de 2008

Escolhas

Caminhando no Parque Mãe Bonifácia hoje, pela manhã (a melhor maneira possível de começar a semana), eu me lembrei mais uma vez de um poema que descobri graças à minha temporada como professora de Literatura norte-americana no curso de Letras da Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso) em Cáceres. Como em terra de cego, quem tem um olho é rei, o simples fato de saber inglês e ter um curso superior me permitiu dar aulas de literatura inglesa e norte-americana num curso superior nos idos de 1993 (há 15 anos, caramba!) Loucos foram eles que me convidaram ou eu que aceitei a incumbência? Discussão inócua nessa altura do campeonato. Só sei que aprendi muito e, eventualmente, ensinei também ("Mestre é aquele que de repente aprende", ensina Guimarães Rosa em seu "Grande Sertão Veredas", obra que, diga-se de passagem, nunca li, mas só apaixonada por essa frase).
Entre muitas descobertas, encontrei o poeta norte-americano Robert Frost (1874-1963) e fiquei encantada com alguns de seus poemas. Mas o que mais me atrai é "The road not taken". Acho que nunca fui atrás de uma tradução para o português porque sou totalmente fascinada pelos versos em inglês mesmo que alguns sejam de difícil compreensão.
Posto aqui o poema na íntegra para quem quiser conhecê-lo:

TWO roads diverged in a yellow wood,

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth;


Then took the other, as just as fair,

And having perhaps the better claim,

Because it was grassy and wanted wear;

Though as for that the passing there

Had worn them really about the same,


And both that morning equally lay

In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!

Yet knowing how way leads on to way,

I doubted if I should ever come back.


I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:

Two roads diverged in a wood, and I—

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference.
Mas o que, afinal, têm a ver o poema de Frost e o Parque Mãe Bonifácia? Toda vez que caminho no parque sozinha, eu me lembro desse poema e me sinto envolvida por sua atmosfera, principalmente num entroncamento onde sempre prefiro o caminho sombreado. A caminhada me traz lembranças também de uma viagem aos EUA em 2007, como integrante de um Grupo do Rotary (IGE), quando permaneci por alguns dias na casa de quatro famílias norte-americanas. Uma delas morava numa fazenda perto da cidadezinha de Fort Wayne, no estado de Indiana, e eu acordava muito cedo para caminhar na estrada, tendo como companhia uma cadela preta enorme do casal, cujo nome não me recordo. Era tão fascinante caminhar naquele frio (era abril) por caminhos quase desertos, meio assustada e, ao mesmo tempo, me sentindo protegida por aquele cão quase desconhecido. Na fazenda tinha um bosque também e no domingo que passei com o casal a gente compartilhou nossa admiração pelo poema "The road not taken".
Não tenho a menor pretensão de traduzi-lo, mas ouso fazer uma tradução livre da última estrofe que resume tudo: duas estradas se bifurcavam num bosque; eu escolhi a que me pareceu menos trilhada e isso fez toda a diferença. Essa idéia conduz a minha vida: em geral prefiro tomar o caminho menos usual, o que me parece mais atraente. Às vezes, quebro a cara, mas essa escolha sempre faz a diferença. É claro que essa escolha me assusta e muitas vezes eu me pergunto se não teria sido melhor ter escolhido a outra. Como saber? Impossível, a menos que eu recorra à fantasia. É uma possibilidade a ser considerada.

Um comentário:

Eugênio disse...

A vida é sempre feita de escolhas. E já que é desse jeito, depois que se toma um rumo ele tem que ser encarado como o melhor que poderia acontecer. Até a gente decidir pela próximo. Parabéns pelo blog, Martha. Apesar de me sentir meio intruso, tipo assim assistindo ao seu BBB particular, vou continuar espiando, tá bom?