segunda-feira, 29 de junho de 2020

Autoanálise



Ensaio virtual do Coro Experimental MT

Em meio a tantas notícias de morte - algumas diretamente ligadas à covid-19, outras indiretamente -, como falar de vida? 
Na sexta-feira, compartilhei com amigos o belo texto escrito pela jornalista Denise Assis, em que ela diz: 
"Neste momento, o mais revolucionário é não morrer. Busquemos dentro de nós, no mais fundo do nosso âmago, a felicidade que estão nos negando. A alegria que tentam nos tirar".  
Bateu fundo mesmo sem eu compreender muito, naquele momento, as razões que a tinham levado a escrevê-lo.
Na sexta-feira, à noite, eu estava cansada, depois de ter trabalhado arduamente em um frila, mas aceitei o convite de amigos para assistirmos juntos a um filme online. Uma experiência nova, que nos provocou muitas risadas. Mais divertido do que o filme em si foi a experiência de tentar sincronizar a exibição na Netflix e lidar com os comentários que rolavam via Zoom. Sempre tinha alguém que ficava atrasado após as paradas necessárias para reativar o link do aplicativo, ir ao banheiro, pegar mais bebida ... 
No sábado, continuei trabalhando, mas à noite teve live dos 78 anos de Gilberto Gil. Foi lindo! Dancei, lamentei não ter alguém para dançar comigo, mas resolvi desfrutar da minha companhia, da minha liberdade. 
Quando a live acabou, repetimos a experiência do "cinema em casa". Desta vez, a escolha recaiu sobre um episódio da série "Black Mirror". Muito bom! Mas, novamente, houve atrasos, várias interrupções, o que provocava um certo alívio em meio à tensão típica dos episódios da série que aborda a questão das novas tecnologias sob um prisma sempre assustador.
Domingo também foi dia de trabalho, porém, à noite teve live de Milton Nascimento. Gil é maravilhoso, mas Milton é quase uma divindade. Com as mãos trêmulas e sua linda voz, Milton me emocionou com o repertório escolhido, que me levou a uma viagem no túnel do tempo. Fiquei tão feliz de ainda ter alguns de seus elepês mais emblemáticos, verdadeiros tesouros que não paro de ouvir desde ontem. 
Antes disso, ouvi um programa só de samba que rola na Rádio Cultura FM de Cuiabá aos sábados e domingos, às 11h: "Estação do Samba". Não consigo ficar sentada. A programação é ótima!
Ontem, especialmente, senti uma saudade imensa do bar Choros & Serestas, mais conhecido como Chorinho, que frequentei durante muitos anos em Cuiabá. 
O Chorinho foi meu "porto seguro" por mais de uma década. Comecei a frequentá-lo - pelas mãos da amiga Manoela Lemos -  pouco antes de me mudar de Cáceres para Cuiabá, .
Aos poucos, o bar simples do bairro Jardim Tropical se tornou meu principal espaço de lazer, encontros e novos amigos. Mas sempre tive muito claro que a principal riqueza do Chorinho era a música, capitaneada pelo músico Marinho Sete Cordas, seu proprietário.
A corumbaense criada no Rio de Janeiro, que sempre adorou carnaval e escolas de samba, foi conhecer o verdadeiro samba em Cuiabá, quem diria!
Com o tempo, passei a cantar na roda de samba que acontecia aos sábados. Comecei com Chico Buarque, mas aprendi novos sambas, trouxe Zé Keti (uma paixão antiga) para a roda e virei "cantora" do Chorinho.  
Frequentei o bar nas noites de sexta-feira, onde um público mais velho rodopiava pelo salão, mas eu gostava mesmo era do momento das apresentações de Marcelo Beleza Pura, quando me acabava de sambar junto com as amigas Maria Helena e Virgínia...  
Depois a roda de samba passou a acontecer também às quartas-feiras e eu corria dos ensaios do Madrigal do Taubaté (realizados no antigo seminário anexo à Igreja do Bom Despacho) para curtir o Chorinho. Sempre ia com a promessa de não jantar, mas a comida era boa, farta e barata. A gente jantava, bebia cerveja e no dia seguinte trabalhava. Bons tempos!
Depois o Chorinho teve que se mudar, mas aí já é outra história. 
Eu sabia desde o início que ia me perder nessas lembranças, mas o que quero dizer mesmo é que a música me mobiliza, me inspira, me faz seguir em frente. Quando viajo para o exterior, estou sempre atrás da música e ela me proporciona os momentos mais inesquecíveis da viagem, seja por meio de um músico de rua, de alguém se apresentando num palco ou numa igreja, ou até de alguém que toca violão para a gente cantar junto em casa. 
Nesses últimos dias pensei muito sobre propósito.
A gente vê tanta gente morrendo - muitos por razões que nada têm a ver com a pandemia, como os meninos Miguel, João Pedro e Guilherme - e eu me pergunto por que ainda estou por aqui. O que quero fazer da minha vida? Como dar sentido a ela?
Eu me dei conta de que durante muito tempo tive vários propósitos na vida e, nos últimos anos, o principal deles foi criar minhas filhas. Com a separação do pai delas, eu me senti absolutamente responsável por criá-las, no sentido de lhes dar educação, alimentação e condições de caminhar na vida com seus próprios pés. Acho que consegui.
Mais recentemente, depois que minhas filhas seguiram seus caminhos, o Coro Experimental MT passou ser o principal propósito da minha vida. Ali eu ganhei visibilidade, amigos e me reencontrei com a música, numa dimensão maior. Eu estava vivendo o meu lado de artista, que sempre viveu escondido, quase envergonhado. 
Com a pandemia, o Coro está sobrevivendo no mundo virtual e a esperança de voltarmos ao palco para realizarmos nossos espetáculos maravilhosos é sempre um alento. Temos tantos planos!
No dia 25 de março, comecei a fazer entrevistas ao vivo - quase de brincadeira e por sugestão do amigo Jefferson Neves (regente do Coro Experimental MT). No início, as conversas aconteceram via Instagram, depois migrei para o Facebook. Esta semana farei o 18º Papo de Quarentena, como comecei a chamar estas entrevistas de aproximadamente uma hora (às vezes, a gente extrapola o horário) com artistas, educadores e pessoas ligadas à cultura de Mato Grosso. A proposta inicial era saber como eles estavam lidando com a obrigatoriedade do isolamento social.
As conversas são prazerosas, divertidas e, não raro, emocionantes, e sempre me fazem refletir muito sobre essa questão do propósito. A arte tem esse poder. O prazer de entrevistar as pessoas que quero no meu "programa" é tão libertador e viciante.
Então é isso. Se você leu esta postagem até o final, talvez me ajude a compreender melhor tudo que está acontecendo. Ou não. Fico feliz por você ter me "ouvido". 
Está sendo difícil lidar com este momento para todo mundo - o medo de adoecer, o medo de morrer de uma maneira tão terrível, o festival de besteiras e desmandos que assola nosso país. Tudo isso deixa a gente com os nervos à flor da pele, oscilando entre a vontade de viver e a de largar mão de tudo, já que o Brasil não tem jeito mesmo. 
Em meio a tantas notícias de morte - algumas diretamente ligadas à covid-19, outras indiretamente -, como falar de vida? 
Esta foi a pergunta inicial deste texto. 
Hoje, um senhor que conheço há muitos anos deixou o hospital no Rio de Janeiro depois de lutar contra a covid-19 por 58 dias. Nesse meio tempo ele perdeu a esposa para a doença. 
Acho que, no momento, a resposta é esta: com raras exceções, o desejo de viver é sempre mais forte em nós. 
E sigo em frente, com o coração apertado às vezes, ainda em busca do meu propósito nesta vida. 


Arte do último Papo de Quarentena, elaborada por Jefferson Neves




sexta-feira, 12 de junho de 2020

When I'm sixty-four


É inevitável. Toda vez que penso no meu aniversário, essa música me vem à cabeça: "When I'm sixty-four" - composição de Paul McCartney, gravada no lendário LP "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Acabo de descobrir que foi gravada em dezembro de 1966, ou seja, quando eu tinha pouco mais de 10 anos, e escrita por Paul quando ele tinha 16. Não sei por que passei anos achando que tinha sid escrita por George Harrison, meu Beatles preferido na adolescência.
O que imaginei quando a ouvi pela primeira vez? Difícil saber, mas, com certeza, parecia uma idade longínqua, quase inatingível. Provavelmente eu me imaginei velhinha, de cabelos brancos,  sentada numa cadeira de balanço e envelhecendo ao lado do meu amado.

"Will you still need me
  Will you still feed me
  When I'm sixty-four?"

E não é que cheguei aos 64 anos? Não estou de cabelos brancos graças ao uso constante de Soft Color e aos gens herdados de meus pais; tampouco, me sinto velhinha. Muito pelo contrário. E acho que isso às vezes é um problema. 
Eu podia estar sossegada fazendo sapatinhos de tricô para meus netinhos ou trilhos de mesa de crochê. Podia ainda estar cozinhando pratos gostosos para receber parentes e amigos aos finais de semana.
Mas mesmo que soubesse fazer tudo isso de que me serviria neste momento de pandemia e isolamento social?
Recebi há pouco o meu segundo telefonema de aniversário (o primeiro foi feito por minha sobrinha Laura na noite de quinta-feira). Era minha filha Diana, que mora na Austrália. Disse a ela que ainda não era meu aniversário e ela retrucou que lá já era dia 13 de junho. Tive a alegria de conhecer seu namorado, que me convidou para ir visitá-los.
Ah, vontade não me falta ... 
Mas voltando aos 64 ... Qual é a sensação de chegar a essa idade? Tenho poucas certezas e definitivamente acho que não faço o gênero daquelas pessoas que sempre falam de tudo com ar sabichão. Pelo menos, nunca foi essa minha intenção.
Procuro ser uma pessoa melhor, mais generosa, menos preconceituosa, mais amorosa, mas confesso que, às vezes, não consigo. Tenho aversão total e irrestrita ao atual governo e não me conformo de ver uma pessoa tão despreparada (e má) no comando do meu país. Tento me convencer de que pouco posso fazer para evitar isso. É algo que está acima das minhas forças ou do meu controle. Confesso que nem tenho prazer em dizer para um bolsonarista arrependido (sim, eles existem): "Eu avisei". De que vai adiantar? Por conta do seu voto (ou de sua omissão), estamos vivendo esse inferno.
Mas, voltando aos 64 anos, não sou uma pessoa realizada, embora tenha muito orgulho de algumas das minhas realizações. Por exemplo, minhas filhas, lindas, livres, encantadoras, amorosas.
Eu me orgulho da minha profissão, do meu trabalho, mas sempre tenho a sensação de que poderia (e ainda posso) fazer mais. 
Tenho orgulho das árvores que plantei (ou melhor, mandei plantar) diante de nossa casa em Cáceres (e que estão enormes) e dos livros que escrevi. Nem todos foram do coração, mas de alguma forma tocaram meu coração ou me levaram a rever (pre) conceitos ou certezas inabaláveis. Gosto mesmo é de contar histórias.
Nos últimos anos, inventei de ser cantora - a realização de um sonho de infância. 
Sinto pressa porque o tempo está contra mim. Ao mesmo tempo, sei que já vivi bem mais do que boa parte da população brasileira. Penso nos meninos Miguel e João Pedro, que perderam tão cedo e de forma tão brutal o direito a envelhecerem ao lado de seus amigos e familiares. Por que?
Neste momento me vêm à memória tantas coisas maravilhosas que vivi: The Beatles, os festivais de música popular brasileira, a ascensão de artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, entre tantos outros que embalaram minha infância e juventude; o movimento de resistência à ditadura militar, a anistia, a volta do exílio de pessoas que nos enchiam de orgulho e esperança (como Brizola, Betinho),  o comício das Diretas já na Candelária, a chegada de novas tecnologias, como o computador, o telefone celular e a internet. 
Tudo isso era motivo de esperança de dias melhores, de um Brasil melhor, mais justo e menos desigual. Como isso aconteceria? 
Talvez eu não tenha feito o suficiente, talvez tudo não passasse de uma utopia.
Vim para Mato Grosso, casei, tive filhos, me descasei e tive que partir novamente. Sempre recomeçando. 
Não sei aonde esperava estar aos 64 anos. Mas, com certeza, não me imaginava sozinha, morando num apartamento em Cuiabá, longe dos amigos da infância e de boa parte da minha família. Ainda bem que amanhã receberei minha filha Marina, seu companheiro e Lola, a cadelinha que todos amamos. Pretendo fazer um bolo de chocolate (receita de minha irmã Jane) e estarei pronta para receber todos os votos de felicidade. Com o coração aberto e com saúde. Acho que é o meu maior desejo no momento. 
Quero viver para cantar (viva o Coro Experimental MT!), viajar, caminhar, nadar, fazer yôga, conhecer meus netos (sem pressão, Diana e Marina) e aprender de uma vez por todas que o amor não é algo que gasta se usar demais. Dizem que existe uma fonte transbordante e inesgotável de amor. Tomara!


Foto de Fred Gustavos, do show "Simples Assim", de 6 de março de 2020




sábado, 9 de maio de 2020

Maternidade

Às vésperas deste Dia das Mães tão atípico por causa da necessidade de isolamento social,  decidi voltar ao passado e dedicar alguns minutos à minha mãe. 
O primeiro passo foi buscar uma foto nossa, uma de nossas primeiras lembranças que me foi entregue recentemente por minha Junilza. 


Mamãe e eu na varanda da Fazenda Santa Blanca 
Há alguns anos comecei a escrever um livro sobre um empresário, cuja grande tristeza era nunca ter uma foto da mãe, que morreu quando ele era muito pequeno. 
Pois eu tive a sorte de conviver com minha mãe até completar 30 anos. Eu já tinha a minha própria casa, ao lado de meu primeiro marido, quando ela faleceu. 
A minha relação com a minha mãe era diferente da forma como minhas amigas se relacionavam com suas mães: quando nasci, ela tinha 44 anos! Hoje uma mulher de 44 anos é considerada jovem, bebe, se diverte, usa roupas coloridas e curtas. Minha mãe era uma senhora quando nasci e era avó de vários netos, já que sou filha temporã. 
Guardo poucas lembranças dela de quando eu era pequena. Em uma delas, eu a vejo rodeada por minhas irmãs que a penteavam. Nessa época ela sempre usava os lindos cabelos negros presos num coque e naquele dia me pareceu uma rainha.
Mas minha mãe não se portava como uma rainha. Ela trabalhava muito em casa. Era uma excelente dona de casa, que cozinhava maravilhosamente e era muito exigente com tudo que dizia respeito à casa e à família. 
Quando eu tinha dois anos, a gente se mudou de Corumbá para o Rio de Janeiro, com meu pai e minhas três irmãs solteiras: Junilza, Jandira e Jane. Meu pai, Júlio Baptista, morreu três anos depois e isso foi um divisor de águas em nossas vidas.
Minha mãe usou luto fechado durante muito tempo e passou a usar os cabelos curtos, roupas e sapatos de velha. Ela parecia não ter um pingo de vaidade. 
Por outro lado, após a morte do meu pai, que era 18 anos mais velho que ela, minha mãe passou a se ocupar mais de mim. 
Jandira e Junilza logo se casaram e ficamos somente Jane, mamãe, eu e Maria da Glória, a menina que morava conosco e ajudava nos trabalhos domésticos. 
Nas férias, meus irmãos que ainda moravam em Mato Grosso costumavam vir ao Rio com os filhos. Era uma confusão danada. Em mais de uma ocasião, aconteceu de duas famílias - com uma penca de filhos - se hospedarem ao mesmo tempo no nosso apartamento da Rua Barão do Flamengo e eu me recordo de ter sentimentos contraditórios a respeito daquela doce invasão.  Por um lado, eu me divertia com a bagunça dos sobrinhos e malas jogadas pelos quartos; por outro, me sentia ameaçada ao ver nossa tranquilidade invadida. Não sabia se era criança como eles ou a tia que deveria dar o exemplo, e tinha alguns privilégios como poder assistir à TV até mais tarde.
Minha mãe ficava doida, mas aparentemente dava conta de tudo. E parecia gostar daquelas visitas que quebravam a nossa rotina. 
Nilzalina aprendeu a ser mãe muito jovem, aos 17 anos, e parecia incansável em sua missão de nutrir e acolher filhos, netos e sobrinhos. Ela não se queixava de ter mais comida para fazer, mais pratos para lavar ... Era avessa às modernidades da vida doméstica.
Por incrível que pareça, muito jovem eu decidi que queria uma vida completamente diferente. Queria estudar, ser jornalista, aprender línguas estrangeiras, sair de casa, viajar pelo mundo. Filhos? Marido? Não eram prioridades. 
Minha mãe acompanhou meio atordoada a minha adolescência e juventude, cheia de conflitos e perguntas, que nunca outras filhas tinham feito. Hoje tenho certeza de que ela se orgulhava muito de mim, mas não era da sua natureza demonstrar isso, o que sempre me dava a sensação de que nenhuma conquista era digna de aplausos (até hoje guardo esse sentimento).
Minha mãe me acompanhava ao conservatório, onde comecei a aprender violão clássico, e depois aprovou minha mudança para a Pró-Arte, assistia aos concertos, e só ficou muito aborrecida quando resolvi - aos 16 anos - que queria participar do Festival de Música de Ouro Preto. Consultou meu tio Luiz, que morava em Belo Horizonte, e ele foi taxativo em dizer que moças de boa família não frequentavam o festival, que acontecia anualmente em julho. Um ano depois, com o apoio de minha irmã Jane, lá estava eu em Ouro Preto, vivendo aventuras magníficas, musicais e comportamentais, dividindo uma casa de república com um bando de malucos que estavam ali por amor à música.
Na volta de Ouro Preto, trouxe um amigo mineiro a tiracolo que pretendia hospedar em casa. Minha mãe não aprovou a ideia e o amigo, cujo nome não me lembro mais, sacou na hora o climão e se propôs a ficar na casa de outro amigo do Rio que tínhamos conhecido em Ouro Preto.
Outros acontecimentos foram marcando nossa relação, que ficou mais próxima, quando Jane também se casou e foi morar longe de nós ... em Ipanema. Era uma viagem ir do Flamengo até Ipanema nos anos 70! 
Na primeira metade da década de 80, quando eu já era uma jornalista com uma bela carreira pela frente, decidi ir morar com meu então namorado. O que poderia ser um choque para minha mãe - a decisão de morar com outro homem sem se casar - acabou sendo uma agradável surpresa para mim, diante da reação dela. Sua grande preocupação foi preparar um enxoval mínimo antes de nossa mudança. Tive a nítida impressão naquele momento que ela só pensava na minha felicidade e não se importava com a opinião alheia.
Fui morar num apartamento gracinha no bairro do Jardim Botânico e me lembro de não parar de chorar nos primeiros meses. Fiz terapia e descobri que era culpa. Eu me sentia extremamente culpada por ter deixado minha mãe, que passou a morar com uma cuidadora (contra sua vontade). Ao mesmo tempo, não achava justo só poder iniciar minha vida adulta e independente depois que minha mãe falecesse.
Nesses anos em que ficamos separadas fisicamente eu procurava visitá-la bastante. Trabalhava na sucursal da revista Veja em Botafogo e me esforçava ao máximo para almoçar com ela em meio à correria da redação. 
Graças ao meu terapeuta na época, Vitor, consegui me desvencilhar do sentimento de culpa e curtir muito o tempo que passava com minha mãe. Pela primeira vez, senti de verdade o quanto ela se orgulhava da minha profissão e do meu sucesso. Mamãe acompanhou com preocupação meu envolvimento no caso Amílcar Lobo (um militar que fez declarações bombásticas sobre o assassinato do deputado Rubens Paiva nos porões da ditadura) e chegou a me dizer um dia que tinha vontade de ter sido jornalista. 
Aquilo me deixou feliz, mas hoje me parte o coração pensar que ela não teve as mesmas oportunidades que eu, embora acredite que tenha sido feliz do seu jeito.


Mamãe e os filhos comemorando seu  73º aniversário, no dia 11 de abril de 1985
Dois anos após a morte de minha mãe, vim para Mato Grosso curtir férias do Jornal do Brasil e acabei me apaixonando (eu já estava separada) por um primo de segundo grau que reencontrei em Cáceres. Eu me casei, vim morar em Mato Grosso, tive duas filhas e continuo por aqui. 
Que ironia do destino eu me casar e morar exatamente na cidade que minha mãe deixou aos 16 anos para viver com meu pai em Corumbá, minha cidade natal!
Às vezes eu me pergunto se teria feito isso se ela estivesse viva na época em que mudei de vida. Será que aprovaria minha decisão de abandonar tudo por um amor?
Não sei. Só sei que, ao meu jeito, também pude exercer a maternidade graças a essa decisão. Sou muito grata por ter podido me dedicar plenamente às meninas em seus primeiros anos de vida. Só voltei a trabalhar quando Diana tinha três anos e Marina, um. Mas trabalhava meio período e perto de casa. 



Conseguia cuidar da casa e almoçar com elas diariamente. Aos poucos, a carga de trabalho foi se tornando mais intensa e, quando elas já eram adolescentes, nos mudamos (somente as três) para Cuiabá.
Acredito, entretanto, que a semente do amor, que nos une até hoje, já tinha sido plantada. E, com certeza, minha mãe teve uma participação muito grande nisso. Ela era a própria expressão da maternidade e seu amor foi decisivo para que eu também soubesse ser mãe. Pena que não aprendi a cozinhar com ela, que sabia fazer comidas tão simples e gostosas! 
A propósito, o desejo de escrever este texto surgiu no horário de almoço quando eu saboreava a feijoada que comprei no restaurante da rua. Estava muito gostosa e me remeteu às feijoadas que mamãe preparava na minha adolescência. Eu era enjoada, então ela fazia uma feijoada especial para mim, com carne seca e salsicha, sem os pertences do porco. A feijoada de hoje estava boa, mas a da minha mãe ... hum... era muito melhor! 
Espero que minhas filhas tenham outras boas lembranças de mim para guardar, que não dependam dos meus parcos dotes culinários.

domingo, 26 de abril de 2020

O mundo se despedaça


Concluí hoje a leitura de "O mundo se despedaça" (Companhia das Letras, 2019), do escritor nigeriano Chinua Achebe.  Tornou-se imperioso falar sobre isso. 
O livro é extremamente triste e, embora discorra sobre um mundo bem diferente do nosso, é tristemente atual.
Este livro chegou às minhas mãos em março, no início do período de isolamento social causado pela chegada do novo coronavírus. O porteiro me avisou que tinham deixado uma encomenda para mim e fiquei até desconfiada já que não estava aguardando. Abri a caixinha com medo e encontrei o belo livro, cuja capa abre este post.  O livro veio acompanhado de uma carta gentil e comovente da amiga Amanda Fontenelli, que conheci no final de 2018 num voo de Cuiabá para Brasília (mas isso é outra história).
Como estava envolvida com a obra de Tereza Albues, que já comentei em outro post, adiei a leitura de Chinua Achebe. No meio do caminho, havia outro livro me esperando: "O Vilarejo" de Raphael Montes, que me foi emprestado pelo amigo Jefferson Neves (outra hora também falarei sobre esse livro).
"O mundo se despedaça" não é uma leitura fácil. A tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva preservou vários termos do original e a versão brasileira vem acompanhada de um glossário organizado por Alberto da Costa e Silva, que também assina a Introdução.
Procurei fugir do glossário enquanto pude até um momento em que capitulei pois a compreensão de um termo usado no dialeto dos personagens era imprescindível para a continuidade da leitura.
"O mundo se despedaça" (do inglês "Things fall apart") conta a história de Okonkwo, guerreiro valente em plena ascensão no intrincado mundo dos ibos, no sudeste da Nigéria. Os fatos narrados acontecem em meio à chegada dos brancos, que provoca a ruptura do mundo como era conhecido por Okonkwo, seus contemporâneos e ancestrais.
O relato é bruto em várias passagens, sangrento e não há como não se condoer da sina de Ekwefi, e das outras mulheres de Okonkwo, e de seus filhos, muitas vezes espancados brutalmente pelo patriarca. Ao longo das 231 páginas do livro, o dia a dia da aldeia vai sendo apresentado com suas festas, celebrações e rituais. Mas o fio condutor da história é o desejo de Okonkwo de alcançar o topo da pirâmide social de seu clã, sobrepujando a história de seu pai, que considera um derrotado, um fraco.
Mas tudo isso - esse mundo solidificado em cima de tradições e de muito medo das forças ocultas, em que as mães são obrigadas a abandonar na "floresta maldita" os filhos gêmeos - é colocado em xeque com a chegada dos brancos. É claro que a chave de entrada é a religião. Os missionários brancos, alguns até bem-intencionados, questionam os deuses dos nativos e condenam seus costumes. Com isso, acabam atraindo a simpatia de pessoas que se sentiam marginalizadas ou simplesmente deslocadas naquele mundo. 
É esse "mundo" que se despedaça sob o olhar de Okonkwo, herói da tragédia descrita por Chinua Achebe. 
O romance de Achebe me remeteu em vários momentos a "Sapiens", que li no início deste ano. Escrito pelo historiador Yuval Noah Harari, o livro é um best-seller e já estava na 48ª edição brasileira (L&PM Editores) quando o comprei no aeroporto de Guarulhos, em novembro passado.
"Sapiens" é um livro extraordinário, de uma riqueza absurda, e explica a organização inicial do homo sapiens em comunidades. Inicialmente, tudo gira em torno da família, que vai se ampliando em clãs, cuja base de sustentação são crenças e tradições, que se unem para forjar uma identidade necessária à sobrevivência. Com a "evolução" da humanidade, esses clãs se transformam em cidades e os laços familiares vão se esgarçando, substituídos pelo estado, pela lei e por outras formas de controle e poder.
Mas isso também é outra história. 
Retornando ao nosso mundo, vejo com preocupação e sem grande esperança o desenrolar dos acontecimentos, sejam eles políticos ou sanitários. De uma certa forma, tudo caminha junto e tenho uma certa pena das pessoas que acham que política é simplesmente o jogo partidário. A política está presente em tudo, em cada decisão tomada por nós, pobres seres humanos que ainda não superamos totalmente o medo das forças do além e que resistimos fortemente a usar a razão para compreender certos fatos da vida.
Antes de terminar este texto, que corre o risco de ficar parecido com o discurso desconexo de certo presidente, gostaria de acrescentar mais um dado a esta reflexão. Estou quase terminando de assistir a uma série muito legal: "Annie with an E" (Netflix). Resisti um pouco a assisti-la, mas depois que comecei me apaixonei pela órfã Annie, sua nova família e amigos. Acho que a série tem pequenos furos, mas não há como resistir à alegria, à coragem e à capacidade de Annie de se meter em encrencas - e resolver muitos problemas seus e das pessoas que a cercam. 
Num episódio assistido ontem (ainda não terminei de assistir à série), uma adolescente indígena é atraída para uma escola com a falsa promessa de que vai aprender conteúdos que vão ajudá-la a viver melhor no novo mundo dos brancos. A história toda se passa no Canadá, no finalzinho do século XIX, e os brancos que se estabeleceram na ilha onde grande parte da série acontece são extremamente preconceituosos.  A doce menina indígena foi enviada para uma espécie de prisão onde é maltratada por padres e freiras, e obrigada a assimilar nome e costumes cristãos, em detrimento de sua própria cultura. Fiquei com um ódio ... 
Mais um mundo que se despedaçou com a chegada dos europeus ao continente norte-americano, assim como aconteceu com os povos indígenas das Américas Central e Sul com a chegada de portugueses, espanhóis, franceses e holandeses. 
Muitos chamam isso de progresso, mas é triste que esse progresso traga sempre tanta morte e sofrimento aos povos nativos, assim como aconteceu no mundo dos ibos retratado tão bem por Chinua Achebe.








terça-feira, 14 de abril de 2020

Acabou Chorare


Em que ano aconteceu essa cena? 1973? 1974? Caminho pela calçada da Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, junto com amigos: Augusto (vulgo Bocão), Saboya, Albuca, Marcelo... 
Formávamos um grupo inseparável, que se conheceu no primeiro ano que estudei no Colégio Santo Inácio.
Eu vinha do Colégio Santa Úrsula, só de meninas, e fui da segunda leva de garotas do tradicional CSI, em 1972. 
Estávamos em plena ditadura militar. Éramos jovens demais para ter participado do auge do movimento estudantil (1968). Naquele momento, estávamos mais para a geração desbunde. 
A maioria dos meus amigos curtia rock, mas eu era apaixonada por MPB: Chico Buarque, Milton Nascimento. Eu era uma autêntica cria dos festivais aos quais assisti pequena, por influência de minha irmã Jane, 13 anos mais velha.
Encontrei naqueles amigos - Bocão, Saboya, Albuca e Marcelo - um grupo eclético que não gostava só de rock, mas curtia MPB e música clássica. Às segundas-feiras, frequentávamos o auditório do Ibam, em Botafogo, onde sempre rolavam concertos da melhor qualidade, de graça. Íamos juntos à Sala Cecília Meirelles e a vários outros locais de concertos e/ou shows.
Naquela noite, retornávamos de um show dos Novos Baianos,  no Teatro João Caetano (se não me engano), no Centro. Não me lembro se viemos a pé do teatro ou se apenas descemos do ônibus e caminhávamos em direção à minha casa e à do Augusto (ambos morávamos na Praia do Flamengo, enquanto os outros moravam em bairros mais distantes da Zona Sul). 
Mas o que ficou na minha lembrança foi sensação de encantamento após o show dos Novos Baianos, que era exatamente isso: uma fusão da boa música brasileira (frevo, samba, etc) com uma pitada de rock, da música eletrificada. 
Para quem é muito jovem, cabe uma explicação: no final dos anos 60, os baianos Caetano e Gil chocaram a plateia mais tradicionalista com a introdução de instrumentos eletrificados na música acústica tradicional. Com o tempo, isso passou a ser normal, mas naquele momento ainda havia muita gente que torcia o nariz para grupos como Mutantes e Novos Baianos.
Por conviver com meus colegas cabeludos do Santo Inácio, que amavam grupos como Yes, Genesis, Emerson, Lake and Palmer, e Jethro Tull, talvez eu fosse um pouco mais receptiva aos novos sons.
Mas se os Novos Baianos tinham um lado frenético, também traziam a suavidade, muita poesia em canções como "Acabou chorare"; reinventaram "Brasil Pandeiro", composição de Assis Valente de 1940; e acabaram se tornando "arroz de festa" em nossas rodas de violão com "Preta pretinha". 
Os Novos Baianos nos encantavam com seu visual hippie, longos cabelos e aquela magreza de gente que come pouco, fuma muito, e vive tudo junto e misturado.
Os Novos Baianos seguiram juntos até o final dos anos 70, mesmo após a saída de Moraes Moreira, considerado seu principal compositor junto com Luís Galvão.
As principais estrelas do grupo - Baby Consuelo e seu então marido Pepeu Gomes, além de Moraes Moreira - seguiram suas carreiras na mídia, assim como o baixista Dadi criou com o irmão Mu o grupo A Cor do Som, que fez sucesso nos anos 80. Mas, para mim, o encanto já tinha passado. 
Nesta segunda-feira, acordamos sob o impacto da notícia da morte de Moraes Moreira, vítima de um infarto aos 72 anos. Morreu sozinho em seu apartamento no bairro carioca da Gávea - o primeiro dos Novos Baianos a nos deixar.
Não vinha acompanhando muito sua carreira, embora sempre tenha simpatizado com ele. Em 2018, junto com meus colegas do Coro Experimental MT, cantamos o hit "Pombo Correio" no espetáculo "Canção Postal". Foi só alegria.
Moraes Moreira nos alegrou muito com suas composições e eu, pelo menos, fiquei sem saber o motivo de seu afastamento dos Novos Baianos. 
O que fica é a imagem de um cara bem-humorado, de voz marcante e aparência sempre jovial. Talvez eu precise conhecer melhor a sua obra musical.

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé ...

Bons tempos! Havia o medo, sabíamos que coisas terríveis aconteciam nos porões do país, nos pátios de quarteis não tão distantes da Praia do Flamengo, mas nós tínhamos a esperança de que tudo aquilo ali iria passar e a ilusão de que poderíamos mudar o mundo.




quarta-feira, 8 de abril de 2020

Minha companheira de quarentena


Neste período de isolamento social forçado pela ameaça do novo coronavírus, ela tem sido uma companheira constante. Até a noite do último domingo (05/04), eu me dividi entre assistir a mais um episódio de uma série da Netflix ou ir para cama mais cedo com a finalidade de ler algumas páginas de seus livros.

Ela é Tereza Albues, escritora mato-grossense nascida em Várzea Grande, em 24 de agosto de 1936, e falecida em Nova York em 5 de outubro de 2005.

Tereza Albues no Salão de Livro de Paris - Divulgação
Como Tereza chegou à minha vida? Em dezembro passado, estive na sede da Entrelinhas Editora e fui “intimada” por Maria Teresa Carrión Carracedo a levar para casa uma caixa com quatro livros da autora. Eles haviam sido lançados em uma edição comemorativa dos 25 anos da Entrelinhas, intitulada “Conexão Tereza Albues” e, ao ter em mãos a caixa divinamente ilustrada com obras de artistas da terra, não resisti. Comprei fiado e trouxe a caixa para casa. 

A leitura propriamente dita só começou em meados de janeiro quando terminei de ler outro livro incrível (sou fiel aos livros que leio). Não marquei a data em que iniciei a leitura da obra de Tereza com “Pedra Canga”. Mas ocorreu com este livro um fato raro: acabei de lê-lo e, imediatamente, recomecei a leitura. Coisa de doido? Não foi a primeira vez que isso me aconteceu, mas é bastante incomum. Aliás, acabei de me lembrar que a última vez que isso me aconteceu foi quando li “Todos os nomes” de José Saramago.

A verdade é que me apaixonei tanto pela prosa da autora que quis voltar ao início, reler cada página para poder sorver melhor os acontecimentos, os personagens inusitados com seus nomes ainda mais inusitados. “Pedra Canga” tem todos os elementos do realismo mágico que tanto apreciei na minha juventude. Lembra aquela atmosfera de Gabriel Garcia Marquez, só para citar o mais célebre dos escritores dessa escola literária.

Tudo parece fantástico, irreal, e, ao mesmo tempo, muito próximo da gente. Como se fosse possível. Em meio a tempestades tenebrosas, personagens sobrenaturais se misturam a outros tão carne e osso (bêbados, beatas, donas de prostíbulos, parteiras, etc) para contar uma história ambientada no bairro (fictício?) de Pedra Canga. Tudo nos é narrado através de uma menina/escritora, alter ego da autora Tereza.  É pelos olhos, ouvidos e sensações da nhanhã que sabemos o que se passou na Chácara do Mangueiral e seus proprietários, os Vergare - uma família de déspotas odiada e invejada pelos vizinhos.

Concluído no verão de 1985 em Nova York, última cidade em que a andarilha Tereza morou, “Pedra Canga” traz na capa uma obra da jornalista e artista plástica Vitória Basaia, de 2019.

Depois desse início promissor, passei à leitura de “A travessia dos sempre vivos”, cuja capa é ilustrada com uma obra de Humberto Espíndola (de 2016). O título me pareceu promissor e o mergulho foi tão ou mais intenso do que no livro anterior. Datado do outono de 1991, este livro vai mais fundo em sua abordagem do sobrenatural. São poucos os contatos na narrativa com o real. Mortos e vivos se esbarram o tempo todo, o que, de uma certa forma, justifica o título da obra. A saga da moça/narradora em busca da história de seu bisavô João Padre é comovente e altamente sedutora. A narrativa mistura as aventuras da própria narradora (seus encontros com os “sempre vivos”) com o resgate da trajetória de João Padre, que abandonou a batina no interior de Mato Grosso para se casar com Teodora, “negra, alta, linda, olhos enormes, inquisidores”.  João Padre enlouquece de amor por Teodora e também de culpa por largar a batina, a vocação imposta pelo pai. Homem bonito, inteligente, culto, alterna momentos de lucidez e imensa ternura, com outros de total demência, que traz muito sofrimento a ele e sua família. Os personagens, que cercam essa trama atendem por nomes como Judite Louca, são tão familiares a nós que nascemos e já vivemos no interior de Mato Grosso!

Ao encerrar a leitura dessa segunda obra, comecei a ler o terceiro livro da caixa. “O berro do cordeiro em Nova York” – que diacho de título é esse? O livro foi concluído no verão de 1992 na chamada Big Apple e a capa traz um desenho digital da artista plástica Regina Pena (de 2016). Só essa capa já mereceria um artigo à parte.

Comecei a ler esta obra no período de isolamento social e ainda não terminei, mas passei da metade com folga. Fiquei absolutamente fascinada. Mal conheço a autora, mas é nítida a pegada autobiográfica do livro, que mistura fatos e acontecimentos tão incríveis que beiram o realismo mágico. Mas a menina/escritora, que vê no estudo a única possibilidade de fugir de uma vida de humilhação e opressão, está lá. Assim como seu berro. De dor, de raiva. O berro que sai fácil, quando provocado pela dor causada pelos vermes na barriga da criança malnutrida; o berro que não sai num momento de muita tristeza e revolta. Berro de cordeiro imolado.

Que força tem Tereza ao trazer para seus leitores fragmentos de sua própria história, da saga de seus antepassados, de seus familiares, vizinhos, dos algozes de seu pai, misturados a uma trajetória de ascensão e sucesso profissional surpreendentes e incontestáveis! A menina saiu do sítio do Cordeiro e foi parar em Nova York, onde constituiu família e faleceu em decorrência de câncer, às vésperas de completar 70 anos.

Finalmente, na semana passada, iniciei a leitura de “Chapada da Palma Roxa”, lindamente ilustrado com obra de Márcio Aurélio. Foi a segunda obra publicada de Tereza* e a última na minha sequência de leitura. “Chapada da Palma Roxa”, não por acaso, guarda muitas semelhanças com “Pedra Canga”, alternando relatos da vida dos moradores de uma localidade fictícia (Porto Garça), “situada em região montanhosa” e “banhada pelo rio Quiraré”, com passagens de puro realismo mágico com direito a borboletas que falam e diálogos com um bebê morto em busca de respostas para o seu assassinato. Aliás, este assassinato (que, segundo soube, foi um fato real ocorrido em 1948) é o ponto de partida do romance, que, mais uma vez, tem como narradora a personagem/escritora, alter ego de Tereza Albues. Impossível não se envolver com os dramas de Miranda, a moça aprisionada por um pai violento e possessivo (Loredano Papandroudis), e outros personagens que brotam da narrativa criativa da autora. A propósito, recomecei a leitura na noite de terça-feira (06/04) com outro olhar, agora que já conheço o final da história.

Aliás, diga-se de passagem, que vida extraordinária teve Tereza! Todos nós, amantes da literatura, mato-grossenses ou não, deveríamos conhecê-la e louvá-la, mas a tirar por mim acho que não é essa a realidade. A editora Maria Teresa, apaixonada pela obra de sua quase xará, deu um passo ousado ao publicar de uma só tacada quatro de suas obras mais conhecidas.  

Que bom! Mesmo em tempos de pandemia – ou até mais do que nunca – é tempo de ler, entregar-se ao prazer da leitura que provoca nossa capacidade imaginativa, nos emociona e nos faz ficar indignados diante desse Mato Grosso tão cruel, tão desigual, tão povoado de coronéis que conduzem as vidas de outros seres humanos como se fossem bonecos de pano, meras marionetes. Não Tereza! Ela se rebela contra um destino previsível e constrói sua própria vida, heroína tardia de sua saga familiar.

Peguei o hábito de sempre olhar sua foto na orelha do livro para ver se encontro os traços da menina franzina, “feia”, que nasceu com vocação para ouvir e contar histórias. Vejo uma morena bonita, de sorriso largo e vasta cabeleira castanha. Queria ter conhecido Tereza em vida, mas agora ela se faz presente por meio de sua literatura. Jamais esquecerei Tereza Albues e convido quem não a conhece a fazê-lo o quanto antes. Você não vai se arrepender.

*“Pedra Canga” foi publicado em 1987 (Rio de Janeiro, Philobiblion, Coleção Prosa Brasileira nº 19); o romance “Chapada da Palma Roxa” foi publicado pela primeira vez em 1990 (Rio de Janeiro, Atheneu Cultura, Série Ficção Brasileira); “A travessia dos sempre vivos” foi publicado em 1993 pela Editora da UFMT; e “O berro do cordeiro em Nova York” teve sua primeira publicação em 1995 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro. Tereza teve mais dois livros publicados e tem outros cinco (romances e contos) inéditos.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Se eu morrer amanhã

Durante alguns anos da minha vida, este blog foi meu melhor amigo. Um confidente mesmo, como um diário adolescente em que você expressa suas angústias, alegrias e decepções. 
Gradativamente ele foi perdendo essa importância. Por que? Talvez eu estivesse conseguindo ser mais feliz ou me expressando de outras formas.
É curioso que chego a dizer num post de meados de 2008 que o meu maior sonho de consumo era ter um notebook para ter a liberdade de escrever quando quisesse, onde quisesse. 
Que eu me lembre, comprei meu primeiro notebook há uns cinco, seis anos, e esse período coincide com o momento em que passo a escrever menos.  
Os números estão lá para quem quiser ver: em 2008, ano de estreia do blog, foram 218 postagens; em 2010, atingi o meu auge com 255 e, depois disso, a quantidade foi caindo gradativamente até despencar em 2013 com 36 postagens. Em 2019, foram somente 14.
Mas, independentemente dos números, é muito legal ver minha vida cultural, familiar e social descrita naquelas postagens. Como o blog era aberto, sempre fui muito cuidadosa com a minha vida amorosa e hoje, enquanto procurava um post a pedido de meu sobrinho Diogo, me surpreendi ao encontrar um texto falando sobre uma decepção amorosa. Como não havia nomes, demorei um pouco para me lembrar quem era o personagem masculino dessa história.
Embora muitos blogs continuem em evidência, acredito que o meu ficou um pouco defasado. Eu teria que ter um foco mais específico, publicar mais fotos. Sei lá. O fato é que eu me cansei dele e meus leitores (alguns bem assíduos) também se afastaram.
Hoje, quando recorro a ele, acabo reproduzindo o texto no Facebook para ter um pouco mais de ibope. Alguns posts conseguem ter bastante relevância, principalmente quando tratam de assuntos como o Coro Experimental MT (do qual faço parte) ou alguma atração cultural de Cuiabá.
Mas, enfim, o pensamento é horrível, mas provavelmente ninguém vai ler mesmo, então posso compartilhá-lo.  Se eu morrer amanhã ou num futuro próximo, meus amigos ou qualquer pessoa que quisesse me conhecer teria um material farto e rico no meu blog. 
Em tempos de pandemia pelo novo coronavírus o pensamento não é de todo absurdo, porém a possibilidade da morte não me assusta, nem parece tangível.
Por ora, tenho respeitado meu isolamento social. Há oito dias não saio de casa. 
Acho que ainda escreverei outros posts por aqui. 

PS. Estou rindo de mim mesma. Fui reler há pouco o texto escrito à noite e vi que cometi um erro imenso: escrevi "há oito anos não saio de casa". Menos Martha, menos.