segunda-feira, 29 de junho de 2020

Autoanálise



Ensaio virtual do Coro Experimental MT

Em meio a tantas notícias de morte - algumas diretamente ligadas à covid-19, outras indiretamente -, como falar de vida? 
Na sexta-feira, compartilhei com amigos o belo texto escrito pela jornalista Denise Assis, em que ela diz: 
"Neste momento, o mais revolucionário é não morrer. Busquemos dentro de nós, no mais fundo do nosso âmago, a felicidade que estão nos negando. A alegria que tentam nos tirar".  
Bateu fundo mesmo sem eu compreender muito, naquele momento, as razões que a tinham levado a escrevê-lo.
Na sexta-feira, à noite, eu estava cansada, depois de ter trabalhado arduamente em um frila, mas aceitei o convite de amigos para assistirmos juntos a um filme online. Uma experiência nova, que nos provocou muitas risadas. Mais divertido do que o filme em si foi a experiência de tentar sincronizar a exibição na Netflix e lidar com os comentários que rolavam via Zoom. Sempre tinha alguém que ficava atrasado após as paradas necessárias para reativar o link do aplicativo, ir ao banheiro, pegar mais bebida ... 
No sábado, continuei trabalhando, mas à noite teve live dos 78 anos de Gilberto Gil. Foi lindo! Dancei, lamentei não ter alguém para dançar comigo, mas resolvi desfrutar da minha companhia, da minha liberdade. 
Quando a live acabou, repetimos a experiência do "cinema em casa". Desta vez, a escolha recaiu sobre um episódio da série "Black Mirror". Muito bom! Mas, novamente, houve atrasos, várias interrupções, o que provocava um certo alívio em meio à tensão típica dos episódios da série que aborda a questão das novas tecnologias sob um prisma sempre assustador.
Domingo também foi dia de trabalho, porém, à noite teve live de Milton Nascimento. Gil é maravilhoso, mas Milton é quase uma divindade. Com as mãos trêmulas e sua linda voz, Milton me emocionou com o repertório escolhido, que me levou a uma viagem no túnel do tempo. Fiquei tão feliz de ainda ter alguns de seus elepês mais emblemáticos, verdadeiros tesouros que não paro de ouvir desde ontem. 
Antes disso, ouvi um programa só de samba que rola na Rádio Cultura FM de Cuiabá aos sábados e domingos, às 11h: "Estação do Samba". Não consigo ficar sentada. A programação é ótima!
Ontem, especialmente, senti uma saudade imensa do bar Choros & Serestas, mais conhecido como Chorinho, que frequentei durante muitos anos em Cuiabá. 
O Chorinho foi meu "porto seguro" por mais de uma década. Comecei a frequentá-lo - pelas mãos da amiga Manoela Lemos -  pouco antes de me mudar de Cáceres para Cuiabá, .
Aos poucos, o bar simples do bairro Jardim Tropical se tornou meu principal espaço de lazer, encontros e novos amigos. Mas sempre tive muito claro que a principal riqueza do Chorinho era a música, capitaneada pelo músico Marinho Sete Cordas, seu proprietário.
A corumbaense criada no Rio de Janeiro, que sempre adorou carnaval e escolas de samba, foi conhecer o verdadeiro samba em Cuiabá, quem diria!
Com o tempo, passei a cantar na roda de samba que acontecia aos sábados. Comecei com Chico Buarque, mas aprendi novos sambas, trouxe Zé Keti (uma paixão antiga) para a roda e virei "cantora" do Chorinho.  
Frequentei o bar nas noites de sexta-feira, onde um público mais velho rodopiava pelo salão, mas eu gostava mesmo era do momento das apresentações de Marcelo Beleza Pura, quando me acabava de sambar junto com as amigas Maria Helena e Virgínia...  
Depois a roda de samba passou a acontecer também às quartas-feiras e eu corria dos ensaios do Madrigal do Taubaté (realizados no antigo seminário anexo à Igreja do Bom Despacho) para curtir o Chorinho. Sempre ia com a promessa de não jantar, mas a comida era boa, farta e barata. A gente jantava, bebia cerveja e no dia seguinte trabalhava. Bons tempos!
Depois o Chorinho teve que se mudar, mas aí já é outra história. 
Eu sabia desde o início que ia me perder nessas lembranças, mas o que quero dizer mesmo é que a música me mobiliza, me inspira, me faz seguir em frente. Quando viajo para o exterior, estou sempre atrás da música e ela me proporciona os momentos mais inesquecíveis da viagem, seja por meio de um músico de rua, de alguém se apresentando num palco ou numa igreja, ou até de alguém que toca violão para a gente cantar junto em casa. 
Nesses últimos dias pensei muito sobre propósito.
A gente vê tanta gente morrendo - muitos por razões que nada têm a ver com a pandemia, como os meninos Miguel, João Pedro e Guilherme - e eu me pergunto por que ainda estou por aqui. O que quero fazer da minha vida? Como dar sentido a ela?
Eu me dei conta de que durante muito tempo tive vários propósitos na vida e, nos últimos anos, o principal deles foi criar minhas filhas. Com a separação do pai delas, eu me senti absolutamente responsável por criá-las, no sentido de lhes dar educação, alimentação e condições de caminhar na vida com seus próprios pés. Acho que consegui.
Mais recentemente, depois que minhas filhas seguiram seus caminhos, o Coro Experimental MT passou ser o principal propósito da minha vida. Ali eu ganhei visibilidade, amigos e me reencontrei com a música, numa dimensão maior. Eu estava vivendo o meu lado de artista, que sempre viveu escondido, quase envergonhado. 
Com a pandemia, o Coro está sobrevivendo no mundo virtual e a esperança de voltarmos ao palco para realizarmos nossos espetáculos maravilhosos é sempre um alento. Temos tantos planos!
No dia 25 de março, comecei a fazer entrevistas ao vivo - quase de brincadeira e por sugestão do amigo Jefferson Neves (regente do Coro Experimental MT). No início, as conversas aconteceram via Instagram, depois migrei para o Facebook. Esta semana farei o 18º Papo de Quarentena, como comecei a chamar estas entrevistas de aproximadamente uma hora (às vezes, a gente extrapola o horário) com artistas, educadores e pessoas ligadas à cultura de Mato Grosso. A proposta inicial era saber como eles estavam lidando com a obrigatoriedade do isolamento social.
As conversas são prazerosas, divertidas e, não raro, emocionantes, e sempre me fazem refletir muito sobre essa questão do propósito. A arte tem esse poder. O prazer de entrevistar as pessoas que quero no meu "programa" é tão libertador e viciante.
Então é isso. Se você leu esta postagem até o final, talvez me ajude a compreender melhor tudo que está acontecendo. Ou não. Fico feliz por você ter me "ouvido". 
Está sendo difícil lidar com este momento para todo mundo - o medo de adoecer, o medo de morrer de uma maneira tão terrível, o festival de besteiras e desmandos que assola nosso país. Tudo isso deixa a gente com os nervos à flor da pele, oscilando entre a vontade de viver e a de largar mão de tudo, já que o Brasil não tem jeito mesmo. 
Em meio a tantas notícias de morte - algumas diretamente ligadas à covid-19, outras indiretamente -, como falar de vida? 
Esta foi a pergunta inicial deste texto. 
Hoje, um senhor que conheço há muitos anos deixou o hospital no Rio de Janeiro depois de lutar contra a covid-19 por 58 dias. Nesse meio tempo ele perdeu a esposa para a doença. 
Acho que, no momento, a resposta é esta: com raras exceções, o desejo de viver é sempre mais forte em nós. 
E sigo em frente, com o coração apertado às vezes, ainda em busca do meu propósito nesta vida. 


Arte do último Papo de Quarentena, elaborada por Jefferson Neves




sexta-feira, 12 de junho de 2020

When I'm sixty-four


É inevitável. Toda vez que penso no meu aniversário, essa música me vem à cabeça: "When I'm sixty-four" - composição de Paul McCartney, gravada no lendário LP "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Acabo de descobrir que foi gravada em dezembro de 1966, ou seja, quando eu tinha pouco mais de 10 anos, e escrita por Paul quando ele tinha 16. Não sei por que passei anos achando que tinha sid escrita por George Harrison, meu Beatles preferido na adolescência.
O que imaginei quando a ouvi pela primeira vez? Difícil saber, mas, com certeza, parecia uma idade longínqua, quase inatingível. Provavelmente eu me imaginei velhinha, de cabelos brancos,  sentada numa cadeira de balanço e envelhecendo ao lado do meu amado.

"Will you still need me
  Will you still feed me
  When I'm sixty-four?"

E não é que cheguei aos 64 anos? Não estou de cabelos brancos graças ao uso constante de Soft Color e aos gens herdados de meus pais; tampouco, me sinto velhinha. Muito pelo contrário. E acho que isso às vezes é um problema. 
Eu podia estar sossegada fazendo sapatinhos de tricô para meus netinhos ou trilhos de mesa de crochê. Podia ainda estar cozinhando pratos gostosos para receber parentes e amigos aos finais de semana.
Mas mesmo que soubesse fazer tudo isso de que me serviria neste momento de pandemia e isolamento social?
Recebi há pouco o meu segundo telefonema de aniversário (o primeiro foi feito por minha sobrinha Laura na noite de quinta-feira). Era minha filha Diana, que mora na Austrália. Disse a ela que ainda não era meu aniversário e ela retrucou que lá já era dia 13 de junho. Tive a alegria de conhecer seu namorado, que me convidou para ir visitá-los.
Ah, vontade não me falta ... 
Mas voltando aos 64 ... Qual é a sensação de chegar a essa idade? Tenho poucas certezas e definitivamente acho que não faço o gênero daquelas pessoas que sempre falam de tudo com ar sabichão. Pelo menos, nunca foi essa minha intenção.
Procuro ser uma pessoa melhor, mais generosa, menos preconceituosa, mais amorosa, mas confesso que, às vezes, não consigo. Tenho aversão total e irrestrita ao atual governo e não me conformo de ver uma pessoa tão despreparada (e má) no comando do meu país. Tento me convencer de que pouco posso fazer para evitar isso. É algo que está acima das minhas forças ou do meu controle. Confesso que nem tenho prazer em dizer para um bolsonarista arrependido (sim, eles existem): "Eu avisei". De que vai adiantar? Por conta do seu voto (ou de sua omissão), estamos vivendo esse inferno.
Mas, voltando aos 64 anos, não sou uma pessoa realizada, embora tenha muito orgulho de algumas das minhas realizações. Por exemplo, minhas filhas, lindas, livres, encantadoras, amorosas.
Eu me orgulho da minha profissão, do meu trabalho, mas sempre tenho a sensação de que poderia (e ainda posso) fazer mais. 
Tenho orgulho das árvores que plantei (ou melhor, mandei plantar) diante de nossa casa em Cáceres (e que estão enormes) e dos livros que escrevi. Nem todos foram do coração, mas de alguma forma tocaram meu coração ou me levaram a rever (pre) conceitos ou certezas inabaláveis. Gosto mesmo é de contar histórias.
Nos últimos anos, inventei de ser cantora - a realização de um sonho de infância. 
Sinto pressa porque o tempo está contra mim. Ao mesmo tempo, sei que já vivi bem mais do que boa parte da população brasileira. Penso nos meninos Miguel e João Pedro, que perderam tão cedo e de forma tão brutal o direito a envelhecerem ao lado de seus amigos e familiares. Por que?
Neste momento me vêm à memória tantas coisas maravilhosas que vivi: The Beatles, os festivais de música popular brasileira, a ascensão de artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, entre tantos outros que embalaram minha infância e juventude; o movimento de resistência à ditadura militar, a anistia, a volta do exílio de pessoas que nos enchiam de orgulho e esperança (como Brizola, Betinho),  o comício das Diretas já na Candelária, a chegada de novas tecnologias, como o computador, o telefone celular e a internet. 
Tudo isso era motivo de esperança de dias melhores, de um Brasil melhor, mais justo e menos desigual. Como isso aconteceria? 
Talvez eu não tenha feito o suficiente, talvez tudo não passasse de uma utopia.
Vim para Mato Grosso, casei, tive filhos, me descasei e tive que partir novamente. Sempre recomeçando. 
Não sei aonde esperava estar aos 64 anos. Mas, com certeza, não me imaginava sozinha, morando num apartamento em Cuiabá, longe dos amigos da infância e de boa parte da minha família. Ainda bem que amanhã receberei minha filha Marina, seu companheiro e Lola, a cadelinha que todos amamos. Pretendo fazer um bolo de chocolate (receita de minha irmã Jane) e estarei pronta para receber todos os votos de felicidade. Com o coração aberto e com saúde. Acho que é o meu maior desejo no momento. 
Quero viver para cantar (viva o Coro Experimental MT!), viajar, caminhar, nadar, fazer yôga, conhecer meus netos (sem pressão, Diana e Marina) e aprender de uma vez por todas que o amor não é algo que gasta se usar demais. Dizem que existe uma fonte transbordante e inesgotável de amor. Tomara!


Foto de Fred Gustavos, do show "Simples Assim", de 6 de março de 2020