sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Meu encontro com Amílcar Lobo

Antes que eu me esqueça vou registrar aqui os fatos que envolveram o "furo jornalístico" ao qual me referi no post anterior. Foi em 1986, num final de tarde de uma sexta-feira, um horário temido por nós, repórteres da sucursal no Rio da revista Veja. Depois de uma semana árdua de trabalho, todo mundo sonhava com uma noite de sexta-feira calma. Apenas um de nós ficava de plantão até ser liberado pelos chefes paulistas. Era sempre um terror ficar de plantão à espera das dúvidas e solicitações dos editores de São Paulo.
Mas nessa sexta-feira eu não estava de plantão e me preparava para ir embora quando o telefone tocou insistentemente e, como conta o meu colega Roni Lima, ninguém ousava atendê-lo com medo de ser um abacaxi. Eu acabei atendendo e, do outro lado da linha, um homem se identificou como Amílcar Lobo. É claro que não me lembro de suas palavras exatas, mas consegui associá-lo a uma matéria publicada há algum tempo relacionada a médicos acusados de tortura.
A nossa conversa evoluiu e meu interlocutor disse que estava pensando em fazer uma denúncia muito séria, talvez no início da semana seguinte. Aí entrou meu papel como jornalista. Conquistei sua confiança e convenci-o "a não deixar para amanhã o que poderia fazer hoje''. Depois de muita conversa, ele decidiu me atender naquela noite, em seu apartamento, no bairro carioca da Tijuca.
Nessa altura do campeonato eu já sabia que ele tinha algo muito importante para contar relacionado ao deputado Rubens Paiva, que morreu no quartel da PE. O Exército não admitia isso e oficialmente dizia que o ex-deputado tinha fugido da cadeia e trocado tiros com a polícia, uma versão que não convencia ninguém.
Quando desliguei o telefone conversei com o meu chefe, José Carlos de Andrade, que se comunicou com São Paulo e aí tive a oportunidade de falar pela primeira vez com Elio Gaspari, o big boss da Veja na época. Era mais ou menos como falar com Deus. Ele me conscientizou da importância do meu contato e me aconselhou a ser muito calma na entrevista de modo a conquistar a confiança do entrevistado e obter o máximo de informações dele. Não foi difícil fazer esse papel até porque eu estava bastante assustada com toda a situação e nesses momentos consigo aparentar muita calma.
Fui ao encontro de Amílcar Lobo com o fotógrafo Antonio Ribeiro e ele me deu um depoimento fantástico, que foi veiculado na íntegra na edição de Veja daquele mesmo fim de semana. Saí da redação de madrugada. A matéria foi uma bomba e no sábado mesmo já tinha coleguinhas de outros jornais me ligando para que eu desse o contato do Lobo para eles fazerem a suite. Lógico que eu não dei.
Sei que essa reportagem acabou contribuindo para que o caso Rubens Paiva fosse reaberto e para que a família tivesse enfim o reconhecimento de que o deputado tinha morrido no temido quartel da PE na Barão de Mesquita em consequência do espancamento sofrido e denunciado por Amílcar Lobo.
Qual foi a verdadeira motivação de Amílcar Lobo ao denunciar o fato? Por incrível que pareça, acredito que ele quis recuperar sua imagem diante de seus pares (ele era médico psiquiatra e trabalhava com psicanálise), por razões profissionais ou mesmo existenciais. Há depoimentos de ex-presos políticos de que ele não era tão inocente ou bonzinho como queria parecer. Seja como for acabou prestando um serviço ao país (ou pelo menos à família de Rubens Paiva), mas não conseguiu o perdão de seus colegas de profissão. Tivemos mais alguns contatos logo depois da primeira entrevista, mas como ele não tinha ou não quis contar mais coisas dos porões da ditadura, a revista Veja acabou perdendo seu interesse por ele - e eu junto, até porque ele me assustava um pouco. Soube que ele morreu, mas nessa época acho que eu já morava em Mato Grosso.
De qualquer maneira, foi uma experiência e tanto na minha vida profissional e pessoal. Infelizmente, não tive maturidade para tirar mais proveito dela. Mas isso já é outra história.

5 comentários:

Beatriz Michelle disse...

Olá Martha,
No jornalismo a sorte literalmente bate a porta ou chama pelo telefone,né?
Acompanho sempre seu blog.
Abraços,
Beatriz

Martha disse...

Que surpresa boa! Como meu computador de casa vive dando problema, eu perdi o endereço do seu blog.
Agora vou poder acompanhar o seu também.
Bjs

Tânia Schmidt Rezende disse...

Olá,Martha!Que prazer conhecê-la!Estava,nessa bela tarde de sol, pesquisando sobre psiquiatria e ética quando desaguei na psicanálise e no seu artigo sobre entrevista com A.Lobo.E meioa textos e assuntos tão pesados foi uma delícia me deparar com a jovialidade do seu texto e algumas peripércias suas.Temos em comum,além do ceratocone, o gosto por alguns filmes e questões existenciais,se é que assim possa dizer.Dê notícias sempre!Um abraço. Tânia.

Martha disse...

Tânia, com muito atraso li com surpresa seu comentário.
Bacana! Fiquei muito feliz com suas palavras e espero que você continue acompanhando meu blog.
Um abraço.

Vivamidia TV Indoor disse...

Martha,
Agradeço pelos comentários que fizeste de meu PAI, ele realmente foi abandonado da sociedade sem dó e nem piedade. Eu não entendo como um cidadão que serviu a PÁTRIA como um oficial R2 ter sido tão crucificado, "AMIGOS" de profissão falarem tantas asneiras. Ele morreu sem conseguir que o CRM devolvesse a ele a dignidade de seu humano, e sem contar da ANISTIA, que pra ele nem contou.
Pena que vc não conseguiu conhecer um homem de uma inteligência inagualável e tão maravilhoso.
Obrigado.