sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Bêbado

O Bêbado demorou para descer do ônibus. Já fazia algum tempo que o ônibus descansava na plataforma da rodoviária de Primavera do Leste. Aparentemente estava vazio até que surgiu o Bêbado, tão bêbado que mal conseguia descer as escadas do ônibus.
Ele desceu, tomou posse da bagagem retirada do bagageiro (mala e mochila) e ficou desorientado bem perto do ônibus. Mal se aguentava em pé e tentava sem sucesso se comunicar com as pessoas por perto.
Era um homem de 40 anos, com a aparência típica de trabalhadores rurais. Estava limpo, bem vestido e não chamaria atenção se não fosse por sua postura cambaleante.
O ônibus demorou para seguir viagem. O motorista tinha saído para jantar.
O Bêbado permanecia próximo ao ônibus, tentando se comunicar.
Finalmente, alguém chegou com uma informação para ele: em breve sairia outro ônibus para uma cidade mais ao norte, provavelmente seu destino final. O moço lhe deu as informações sobre o guichê onde deveria comprar a passagem.
Perguntei ao moço:
 -Será que ele consegue chegar lá?
- Não sei. Também não sei se vão deixar ele embarcar nesse estado.
O Bêbado pegou a mala e a mochila e seguiu cambaleante na direção apontada pelo outro.
Perguntei ao funcionário do ônibus se o Bêbado já estava bêbado quando embarcou.
- Sim, mas ele não deu trabalho. Dormiu o tempo todo.
-Mas pode embarcar desse jeito?
-Não pode ...
Subi no ônibus para voltar a Cuiabá - confesso que estava aliviada por não ter que dividir espaço com um bêbado - e acabei sabendo por outros passageiros que o Bêbado deu trabalho sim. Não queria parar quieto e um moço acabou prendendo-o no banco com o cinto de segurança.
- Ele achou que eu era da Polícia - contou o rapaz.
- O moço que pega a bagagem disse que ele não deu trabalho ...
- Não deu trabalho? Não deu trabalho para ele que não estava aqui ...
Segui minha viagem pensando no Bêbado e até hoje, sinceramente, ainda penso nele. Será que chegou a seu destino? Será que chegou a algum destino? Por que será que bebeu tanto? Será que ele bebe tanto sempre?
Ele é só mais um bêbado entre tantos outros trabalhadores do campo, da cidade, que gastam em bebidas alcóolicas boa parte dos salários ganhos com muito suor. 
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

As três mortes de Adrielly


Não posso me furtar a registrar aqui a triste história de Adrielly - a menina que morreu três vezes: a primeira quando foi atingida por uma bala perdida na noite de Natal, num bairro qualquer da Zona Norte carioca; a segunda quando aguardava por um neurocirurgião no Hospital Salgado Filho, no Méier, e o médico escalado para o plantão, Adão Crespo, preferia celebrar o Natal em família.
Ele alega ter pedido demissão, mas as informações mais recentes da polícia indicam que recebia sem trabalhar cerca de R$ 4,5 mil mensais. Deve ser uma quantia insignificante para um neurocirurgião, mas seria bem significativa para a família de Adrielly. Talvez se o pai de Adrielly recebesse essa quantia por mês não precisaria ficar à mercê de plantonistas irresponsáveis.
A terceira morte de Adrielly, definitiva, aconteceu na última sexta-feira (04/01).
Nada vai devolver a vida à Adrielly, nem apagar o sofrimento de sua família, que se desesperava enquanto tantos de nós festejávamos o Natal.
Espero sinceramente que essa morte e essa omissão não fiquem impunes. Se o dr Adão recebeu sem dar plantão e faltava ao serviço sistematicamente, ele tem que pagar: ser exonerado, devolver o dinheiro ao Município, doar para a família de Adrielly, a um fundo de vítimas como ela.  Sei lá.
Se ele está dizendo a verdade, seus superiores precisam ser penalizados.
Hoje li que um funcionário do hospital pediu uma ambulância para transferir Adrielly na falta do neurocirurgião plantonista. A ambulância não chegou.
Adrielly não pode ter morrido três vezes em vão. Infelizmente, algo me diz que ninguém será punido pela morte da menina. Mas, pelo menos, poderia haver por parte das autoridades da área de Saúde um controle maior sobre o quadro dos plantonistas de um hospital público, assim como sobre a assiduidade de tais cidadãos.
As informações mais recentes sobre o caso da menina Adrielly dos Santos, de 10 anos, estão no seguinte link:http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/01/policia-confirma-que-medico-do-caso-adrielly-fraudava-folha-de-ponto.html

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A barata

Ontem, cheguei em casa feliz e relaxada após minha primeira aula de yoga do ano. Trazia sacolas da compra feita no supermercado antes da aula.
Quando abri a porta, vi que tinha um inseto enorme na parede. No meu bom humor, imaginei que podia ser uma mariposa. Não era. Era uma barata, imensa, escura, assustadora.
Larguei as compras correndo em cima da mesa, fechei a porta e desci os dois andares de escada aos saltos na esperança de encontrar um salvador.
Como não encontrei, fui pedir ajuda ao porteiro. Fernando, meu novo heroi, prontificou-se a largar seu posto para me socorrer. Subimos as escadas correndo e mostrei a ele onde estava a barata, dizendo que eu iria ficar do lado de fora do apartamento porque morria de medo.
Ainda bem que ela permaneceu quietinha na parede.
O porteiro me pediu um chinelo. Eu me recusei a emprestar o meu e entrei para buscar outro chinelo na área de serviço e um inseticida em spray para o caso dela voar.
O Fernando continuou de olho no bicho.
Entreguei um lado de chinelo e o Detefon. Ele deu uma chinelada certeira na barata,  que, felizmente, não deixou nenhuma marca na parede. Pediu então uma pá para recolher o bicho. Eu peguei, mas pedi para ele levar a barata embora com medo de que não estivesse bem mortinha ou ressuscitasse no meio da noite, atormentando meu sono.
Dei-lhe um saco plástico que veio com as compras e ele se foi levando o cadáver no saco.
Tudo aconteceu muito rápido e ele foi embora rapidamente porque já tinha um carro esperando que o porteiro abrisse o portão eletrônico.
Serei eternamente grata ao Fernando. Vi que é um porteiro de valor que não se nega a ajudar moradores com medo de baratas.
Não sei o que acontece comigo. Meu medo de barata é insano e descomunal. Às vezes acho que ele está mais dominado, mas quando surge uma situação real de perigo vejo que não.
O curioso é que está fazendo 10 anos que me mudei para esse apartamento em Cuiabá e, salvo engano, é a segunda vez que enfrento uma situação semelhante. Da outra vez, pedi socorro ao vizinho.
Fiquei até tentada a buscar significados ocultos para esse episódio.
Uma lição ficou clara para mim: acho que posso confiar mais nas pessoas.
Apesar do contrasenso, de alguma forma eu me senti protegida.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Perdidos e achados

Uma pessoa muito querida me deu um toque de que preciso falar também de coisas boas que me acontecem no dia a dia.
Resolvi contar então sobre duas experiências interessantes e recentes e que me fazem pensar que não posso me queixar de falta de sorte.
Há algumas semanas perdi meu celular. Fui buscar mnhas filhas num shopping perto da minha casa e me lembrava de ter combinado o encontro por telefone quando saía de casa. Depois que nos encontramos e nos sentamos no bar de um casal de amigos, procurei o celular na bolsa e não o encontrei. Minha filha mais velha me disse que eu estava ligando para ela. Impossível! Ela ligou para mim e atendeu um rapaz dizendo que tinha encontrado meu celular na rua São Sebastião (onde descemos). Ele queria saber onde estávamos para devolver o aparelho. Em menos de cinco minutos, o rapaz, um entregador do Choppão, um restaurante tradicional de Cuiabá, me entregou o celular. Fiquei agradecida e surpresa com tudo.
Alguns dias depois, já no Rio de Janeiro, fui à praia e coloquei minha câmera numa bolsinha a tiracolo. Passamos - minha irmã e eu - na farmácia e numa pequena mercearia para comprar água. Quando cheguei à praia, não encontrei a máquina e fiquei com a esperança de tê-la deixado em casa. Não tinha. Fiquei triste, mas não me conformei com a ideia de que teria sido roubada. Resolvi refazer o caminho de ida para a praia e minha primeira parada foi na Droga Raia. Mal falei com uma moça que se ofereceu para me atender e ela falou "ah, uma máquina fotográfica?" Recuperei minha câmera que tinha sido deixada no balcão. Não me lembrava sequer de tê-la tirado da bolsa.
Enfim, dois descuidos que quase me custaram dois equipamentos que me fariam falta.
Ainda bem que há muita gente honesta - verdadeiros anjos da guarda - que zela pelos distraídos.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Hipocrisia e descaso

Todos os anos, nos meses de janeiro e fevereiro, principalmente, repetem-se as tragédias provocadas pelas enchentes no Brasil, em geral nos Estados do Rio, Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo e outros.
Mas, até que ponto, são tragédias inevitáveis?
Ontem e hoje, assistindo ao noticiário de TV, fiquei com o coração cortado de ver lágrimas, revolta e medo nos depoimentos colhidos em Xerém, município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e Teresópolis. Apareceu uma mãe de 10 (!) filhos, dizendo que não tem para aonde ir. Pensei naqueles garotos criados totalmente marginalizados, no sentido literal da palavra, de estar à margem de uma sociedade que tem um mínimo de direitos assegurados (à saúde, à moradia, etc).
Fiquei comovida também com o exemplo do sambista Zeca Pagodinho que, apesar do sucesso, não abandonou suas raízes e a comunidade onde cresceu*.
O que choca é sobretudo o descaso das autoridades: governadores, secretários e prefeitos que não cumprem as promessas de ajuda feita em meio a lágrimas de crocodilo no auge da última tragédia e diante de microfones e holofotes da mídia. Não têm o menor puder de mentir ou será que, como disse o poeta Afonso Romano de Sant'Anna num poema maravilhoso, mentem tanto que até acreditam em suas mentiras?
Há uma semana o jornal O Globo estampava fotos do lixo acumulado nas calçadas de Duque de Caxias. O prefeito que estava saindo não pagou a conta da companhia de limpeza, como aconteceu em tantas cidades brasileiras onde houve troca de prefeito.
Mas também não podemos deixar de mencionar a nossa culpa como habitantes de um País que fala tanto em educação ambiental, sustentabilidade, porém é tão inoperante na destinação dos resíduos sólidos - o lixo nosso de cada dia.
Estive no Rio de Janeiro há poucos dias e fiquei chocada de ver a quantidade de lixo deixada na areia da praia. Antes que os garis venham recolher latas, garrafas, plásticos e cocos, boa parte do lixo já foi levada pelo mar. É lamentável!
Já vi que o governo fluminense já anunciou benesses para as vítimas das chuvas. Será que as pessoas que realmente precisam de ajuda como a família citada acima serão beneficiadas? Duvido.

PS.* Aproveito para fazer um reparo ao meu texto graças à informação de Alexandre Fernandes, blogueiro http://facaamoladafecega.blogspot.com.br/ e ex-colega do Colégio Santo Inácio:
"O Zeca Pagodinho, na verdade o Jessé, cresceu em Del Castilho, passando a infância e a adolescência junto comigo. Ele só foi para Xerém adulto e casado, onde criou seus filhos e morou até pouco tempo. Daí a integração com aquela região e com seus moradores, que o veneram, pela simplicidade e solidariedade desde sempre. É um cara do bem, asseguro."
 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Assalto no aeroporto

Conversei com um amigo e fã do meu blog na virada do ano e ele foi categórico: um blog só vinga se for atualizado constantemente. De que outra forma poderemos cativar e fidelizar leitores?
Sei que andei perdendo muito de meus leitores com meu sumiço.
É uma pena, por um lado, mas, por outro, talvez seja necessário perder algumas posições conquistadas para avançar mais à frente.
O fato é que andei de mal com meu blog.
Hoje, ao longo do dia, tive vontade de escrever várias vezes e falar sobre tantos assuntos que me vieram à mente.
Talvez eu precise ser disciplinada e traçar uma pequena pauta, do tipo: hoje, falar sobre viagem; amanhã, falar sobre o novo prefeito de Cuiabá; depois de amanhã, falar sobre os filmes que vi durante minha breve ida ao Rio de Janeiro; em seguida, falar sobre o livro que li; depois falar sobre planos para 2013, etc, etc, etc.
Então, vamos começar pela viagem. Estive no Rio de Janeiro entre os dias 21 de dezembro (esse praticamete não conta, já que cheguei ao Galeão depois das 2 horas da madrugada) e 1º de janeiro.
Viajei de Gol graças aos pontos emprestados por um de meus sobrinhos de Brasília e os voos foram bastante tranquilos. Fiquei o tempo todo concentrada nas minhas leituras: a revista da Gol, que estava deliciosa, e dois livros (comecei a ler um na ida, mas troquei sua leitura por outro na volta, que pretendo comentar brevemente).
Tenho a observar algumas coisas como turista:
1- Eu contava pegar o ônibus do Galeão para a Zona Sul como já fiz em viagens anteriores e pegar um táxi num trajeto menor para chegar à casa da minha irmã em Ipanema, economizando alguns reais para gastar durante a minha estadia no Rio. Não teve jeito: o ônibus que liga o aeroporto à Zona Sul, passando pelo Centro, não circula de madrugada, embora os voos não parem de chegar no período. Segundo me informaram, o último ônibus sai às 23h e o próximo só sai às 5h30m. Resultado: como cheguei por volta de 2h, ou eu ficava três horas morgando no aeroporto ou pegava um táxi. Optei por pegar um táxi comum, que me custou R$ 61 entre o Galeão (na Ilha do Governador) e Ipanema. Até que não foi tão caro comparado à tarifa de táxi em Cuiabá, que é caríssima. Acabei viajando praticamente "de graça" de avião e gastando R$ 106 de táxi!
2- Na volta, peguei o avião no Aeroporto Santos Dumont e gastei R$ 40 entre Ipanema e o aereporto (como era feriado, peguei bandeira 2). Mas, como saí de casa meio correndo (para variar), acabei tendo que gastar com lanche no aeroporto. Um detalhe: a Gol não oferece nada aos passageiros no trecho entre São Paulo e Cuiabá. No trecho Rio-SP,  como não dá tempo para eles cobrarem pelo lanchinho, eles dão amendoim (ou um pacote de salgadinho) e bebidas. Acabei comendo um sanduíche no Aeroporto de Congonhas. Sabe quanto paguei por um Panini insosso e praticamente sem recheio (queijo e peito de peru)? Dezoito reais! Um verdadeiro assalto, já que você não tem a opção de escolher entre várias lanchonetes e empresas!  Juro que da próxima vez vou levar lanche de casa!
Hoje, só deu para falar dos gastos da viagem. Amanhã, prometo falar sobre algumas impressões da viagem em si.
Esqueci de contar quanto paguei pelo táxi do Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, até minha casa, no bairro Popular (ou Goiabeiras): R$ 38! Isso porque eu "fugi" dos táxis oficiais do aeroporto e peguei um táxi comum (que cobra por taxímetro) no ponto que fica do outro lado do estacionamento. Portanto, foram R$ 106 de táxi na viagem de ida e R$ 78 na volta, mas vale lembrar que os trajetos no Rio foram feitos a partir de aeroportos diferentes.
No total foram R$ 184 de táxi, sendo que eu gostaria de optar por um transporte mais barato. Em Cuiabá, por enquanto, nem pensar em transporte coletivo até o aeroporto. Daqui a dois anos, quem sabe? No Rio, uma cidade mais cosmopolita, você até pode optar por ônibus (tenho feito isso nas últimas viagens) desde que não chegue de madrugada ou não seja do tipo que sai de casa em cima da hora.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Harmonia

Saudades do blog ... Saudades de mim?
Acho que há tempos eu não me sentia tão em harmonia comigo mesma, apesar da correria e das angústias de sempre.
Acho que o mérito dessa mudança se deve a ...
Quando a gente está melhor de ânimo nem sabe a que atribuir a mudança.
É mais ou menos como quando aconteceu quando minha filha caçula sofria muito com bronquite. Eu dava a ela tudo que me recomendavam: homeopatia, banha de galinha caipira, fazia inalação... De repente ela foi melhorando. O que lhe fez bem? Não sei, talvez o conjunto das "terapias" ou apenas a passagem do tempo.
Nas últimas semanas, decidi não me sentir tão vulnerável e fragilizada. Comecei a ler os textos de minha amiga Dete no blog recomendado no post anterior (Spirit Guide Messages) e fiquei extremamente surpresa com algumas coincidências. Por exemplo, num sábado em que eu estava chateada por trocar a ida ao Chorinho por trabalho, ela postou um texto sobre a importância de ter o trabalho. Aquela leitura modificou totalmente meu estado de ânimo e o trabalho fluiu com facilidade.
Também voltei a praticar reiki mesmo que não seja de uma forma 100% ortodoxa. Às vezes eu durmo no meio do processo
O que mais posso contar? Continuo tentando nadar sempre que posso (menos do que gostaria) e praticando a yoga pelo menos uma vez por semana. Ah, também estou tomando homeopatia.
Continuo me sentindo sozinha às vezes, mas um pouco menos ou, pelo menos, de uma forma menos doída.
Depois de amanhã, Marina, a caçula que tomou mamadeira com banha de galinha caipira sem saber, vai chegar, mas por pouco tempo. Na segunda, ela já segue viagem para Cáceres onde vai fazer exame para tirar a carteira de motorista.
Daqui a duas semanas exatamente estarei voando para o Rio para pouco mais de uma semana com boa parte da família. É sempre bom visitar a cidade que adoro e reencontrar pessoas que amo.
Pena que minhas filhas não estarão comigo, mas faz parte: encontros e despedidas sempre, como cantou Milton Nascimento e Fernando Brant.
E la nave va.