terça-feira, 2 de agosto de 2016

Quem te viu quem te viu






Hoje fui surpreendida com a notícia do fechamento do bar Choros &Serestas – o Chorinho tantas vezes mencionado neste blog. Não quero falar sobre os motivos do encerramento das atividades do bar e restaurante que, aliás, continuará abrindo para almoço durante algum tempo.
Só quero registrar mais uma vez o meu imenso carinho pelo Chorinho, que já foi minha segunda casa em Cuiabá. Quando me mudei de Cáceres para a capital mato-grossense há 13 anos logo identifiquei aquele bar simples e aconchegante do bairro Jardim Tropical como o “meu lugar” em Cuiabá.
Mal sabia chegar lá no início. Conheci o Chorinho graças à amiga Manoela que, durante um tempo, foi minha fiel companheira de samba aos finais das tarde de sábado. Eu chegava tímida com minha amiga sambista, que dava show na pista de dança com Elis, dançarino completo. De vez em quando, ele me tirava para um samba e eu me sentia lisonjeada com a honra de dançar com o grande Elis. Saravá!
Aos poucos, fui conhecendo mais pessoas, frequentando o baile das sextas, as noites de quinta-feira (antes da moçada tomar o Chorinho de assalto) ... De repente, o sábado ficou apertado para tanta gente que se tomou de amores pelo Chorinho, por aquele samba democrático, bagunçado que corria ligeiro e animado sob o comando quase imperceptível do grande Marinho Sete Cordas. Quase ao mesmo tempo, as quartas-feiras começaram a ficar animadíssimas, compartilhadas por antigos e jovens apaixonados pelo Chorinho.
O auge do Chorinho – para mim – foi entre 2006 e 2012, quando comecei a me sentir íntima da casa. E comecei a cantar. Não me lembro quando foi a primeira vez que tive coragem de pegar o microfone e cantar “Quem te viu quem te vê”, que acabou se tornando minha marca registrada. Mas me recordo de um sábado em que admirava a roda de samba e Marinho fez sinal para eu cantar. Envergonhada, olhei para trás para me certificar de que o sinal era realmente para mim. Pronto, o “monstro” estava criado. Nunca mais parei de cantar. Briguei pelo microfone, naquelas noites em que representantes da velha, média e nova guarda se revezavam para interpretar seus sambas preferidos.
Era divertidíssimo! Bebi muito, comi pouco, sambei pra caramba ... Fiz muitos amigos, tive paqueras e teria muitas histórias divertidas para contar sobre o Chorinho que vivi.
Com a mudança forçada por conta de denúncia feita à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que não demonstrou qualquer boa vontade com a casa, o Chorinho começou uma nova etapa de sua história. Alguns velhos frequentadores deixaram de ir por um tempo ao novo Chorinho, instalado no bairro Quilombo (a alguns metros da Praça do Choppão). Os universitários que iam em busca de cerveja e comida baratas também foram se afastando. Novas pessoas chegaram.
Confesso que fiquei um pouco arredia no início diante de filas na porta e de um clima diferente do boteco do Jardim Tropical. Mas minha resistência foi vencida por Marinho que me disse: “Somos nós. É a música de sempre”. Ele tinha razão, em parte. Aos poucos, fui voltando a frequentar o “novo” Chorinho. Continuei dançando, cantando cada vez mais e fiquei muito feliz de ter sido convidada para participar de alguns eventos especiais, como o show em homenagem a Paulinho da Viola e Lupicínio Rodrigues, ao lado de cantoras veteranas e novatas.
E por falar em Paulinho, que estou ouvindo enquanto escrevo estas linhas, foi lá no Chorinho que aprendi a cantar “Onde a dor não tem razão”, que se tornou um dos meus sambas preferidos. Também foi lá que aprendi a cantar “Desde que o samba é samba”, de Caetano Veloso.
Conheci músicos que hoje fazem sucesso no cenário mato-grossense e nacional, como Paulo Monarco, Luciana Bonfim, Ana Rafaela (quando era apenas uma menina que impressionava por sua maturidade e talento musical), Lorena Ly, Joelson Conceição, Henrique Maluf e tantos outros.
Lamento muito que o Chorinho esteja fechando suas portas e desejo que o casal Marinho e Fátima encontre novos caminhos. Só tenho que agradecer o privilégio de ter curtido os bons tempos do Chorinho, ainda que não seja da chamada Velha Guarda da casa. Espero que os amigos feitos nesse tempo não se esqueçam de mim e não pretendo esquecê-los. Estou fechando uma página da minha vida em Cuiabá ... Com tristeza, mas também com muita gratidão!



8 comentários:

COA Car disse...

Emocionante querida! Um texto digno de sua sensibilidade. Grato por compartilhar. abraço, Claudio

Martha disse...

Grata pelo comentário, Claudio! Senti que devia compartilhar um pouco dos meus sentimentos em relação ao Chorinho, um lugar tão amado! Abraços

Maria Helena Lopes disse...

Adorei amiga. Bela homenagem. Vamos ter muita lembrança boa pra recordar.

Maria Helena Lopes disse...

Adorei amiga. Bela homenagem. Vamos ter muita lembrança boa pra recordar.

Marcelo Neves disse...

Martha, você sempre com uma sensibilidade impressionante ao escrever! Lindas palavras!

Martha disse...

Obrigada, Maria Helena! Obrigada, Marcelo!

Jane Bicudo disse...

Martha, eu que não moro em Cuiabá, fiquei muito triste ao ler o seu post. Imagino o sentimento de perda de todos os frequentadores desse local tão musical, alegre e aconchegante. Com certeza, Cuiabá perderá um ponto importantíssimo de boa música e lazer.
Para variar, adorei o seu texto. Lindo!

Jane Bicudo disse...

Martha, eu que não moro em Cuiabá, fiquei muito triste ao ler o seu post. Imagino o sentimento de perda de todos os frequentadores desse local tão musical, alegre e aconchegante. Com certeza, Cuiabá perderá um ponto importantíssimo de boa música e lazer.
Para variar, adorei o seu texto. Lindo!