segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ilha Grande: um paraíso ameaçado



Andei publicando fotos sobre um paraíso chamado Ilha Grande (a maior ilha do litoral de Angra dos Reis), mas sinto que é meu dever também alertar para as ameaças que rondam esse paraíso.
Passei apenas quatro dias na Ilha Grande, realizando um sonho de adolescência. No final dos anos 70/início dos anos 80, meus amigos mais aventureiros (muito deles surfistas) iam à Ilha Grande e traziam notícias de um lugar paradisíaco. A praia de Lopes Mendes especialmente se tornou um local mítico, para mim.

Após a demolição de boa parte das dependências do presídio Cândido Mendes (em 1994), que recebeu presos políticos durante a ditadura e presos comuns notórios, o turismo se intensificou na região e, aos poucos, muitos amigos e pessoas da minha família passaram a frequentar o local, mas nessa época eu já morava em Mato Grosso.
No final do ano passado, como teria três semanas de férias, contei à minha irmã Jane sobre meu objeto de desejo e ela acabou comprando a ideia (e embarcando nela literalmente). 
No dia 17 de dezembro, três dias após minha chegada ao Rio de Janeiro, pegamos o ônibus para Conceição de Jacareí, que é hoje o local de mais fácil acesso para a Ilha Grande, com grande disponibilidade de embarcações em diversos horários. 
Tudo deu certo conosco: o clima estava perfeito, com céu azul em contraste com os diferentes tons de azul e verde das inúmeras praias, enseadas e lagoas. 

Não fizemos a volta inteira na ilha por recomendação de nossas consultoras informais - uma sobrinha e uma amiga que frequentam muito a Ilha e conheciam nossas limitações (temporais e físicas).
Portanto, não visitamos as praias de mar aberto, onde as ondas são maiores e, tampouco, o presídio desativado. Por outro lado, conhecemos a parte mais aprazível da ilha, com praias de mar manso e sedutor. 
Passeamos de lancha, traineira, escuna e taxi-boat, sempre em águas calmas e confiáveis. Nem ficamos com medo quando a escuna que nos levava de volta a Conceição do Jacareí parou por um tempo no meio do caminho (o motor parou de funcionar e, por sorte, o pessoal de bordo deu um jeito).
Conhecemos pessoas muito simpáticas em bares, restaurantes e agências de turismo - gente local e gente que trocou a vida agitada no Rio de Janeiro e en outras cidades para viver o dia a dia de uma ilha sem automóveis e repleta de turistas.
O movimento no cais da Vila do Abraão é intenso, com muita gente chegando e indo embora em todas as horas do dia. Com a facilidade de transporte, muita gente vem apenas passar o dia, como uma família que conheci na escuna na volta para Conceição do Jacareí. Moradora em Realengo, no Rio de Janeiro, uma integrante desse grupo me contou que visita a Ilha há muitos anos e disse que antes não havia tanta sujeira. 
É claro que havia menos visitantes, mas ela disse também que havia mais fiscais nas trilhas, que chamavam a atenção dos turistas quando jogavam o lixo.
Chegamos, portanto, à minha maior crítica em relação ao turismo em Ilha Grande. O lugar é lindo, mas está sendo vítima de um turismo muito intenso e desregrado. Todas as trilhas (inclusive, a de acesso à mítica praia de Lopes Mendes) têm muito lixo: latas, garrafas de plásticos, etc. As pessoas chegam ao cúmulo de enfiar o lixo nas estacas que marcam a trilha.
Outra crítica que faço é quanto à quantidade de lanchas em locais como as lagoas Azul e Verde. Pelo que vi, não há limite de embarcações, então esses lugares maravilhosos, onde os maiores atrativos são os peixes, a incrível vida marinha e a transparência das águas, ficam coalhados de lanchas e escunas. Além do impacto do barulho dos motores e do derramento de óleo, há também fatores de risco até para os banhistas que nadam em meio a tantas embarcações (e âncoras mal fincadas). No dia em que fizemos a meia-volta na Ilha (18 de dezembro), o condutor da lancha até inverteu a ordem das paradas porque a Lagoa Azul estava lotada demais de lanchas quando passamos lá pela primeira vez.

Na minha opinião, deveria haver mais ordenamento, uma limitação de quantidade de embarcações nesses pontos turísticos e, naturalmente, mais fiscalização, já que o ser humano é preguiçoso e poucas pessoas têm muita consciência em relação ao lixo (veja os exemplos das praias do Rio de Janeiro, que ficam nojentas ao final de um dia de sol).
Senti que o que está prevalecendo na ilha é a vontade de vender, ganhar dinheiro com o turismo, porém, se isso continuar acontecendo, sem qualquer tipo de controle, um dia não teremos mais um paraíso chamado Ilha Grande. 

Um comentário:

Eliane Fiuza Eliane disse...

TEXTO PERFEITO.TAMBEM PENSO A MESMA COISA.MEU MARIDO NASCEU NO ABRÃAO E ESTAMOS PRATICAMENTE MORANDO MAS JÁ ESTAMOS FICANDO COM PENA COM A DEGRADAÇÃO DO LOCAL,EXCESSO DE MORADORES E LIXO.PERCEBEMOS QUE TODOS ESTÃO ACOMODADOS E ACEITANDO TUDO ISSO EM NOME DE UM TURISMO DEGRADANTE QUE PENSA NA QUANTIDADE E NÃO NA QUALIDADE.