Ontem quando saía do Sesc Arsenal, fui abordada por um rapaz que me pediu uns trocados por ter olhado meu carro. Até quis argumentar que ele não estava ali quando estacionei o carro debaixo de chuva, mas já ia procurar uma moeda para lhe dar quando meu carona encontrou um real e lhe deu.
Fiquei pensando nele: um rapaz de uns 16/18 anos, negro, encorpado, de bermuda e pés no chão. Aquilo me doeu tanto, que tive vontade de arrumar um par de sandálias Havaianas ou um tênis e dar para ele. Pode ser apenas uma viagem minha, mas fico pensando em quanta gente anda pelas ruas em Cuiabá e outras cidades brasileiras precisando às vezes apenas de uma chance para mudar de vida.
Todo dia ouço falar que Cuiabá tem muita oferta de emprego, que falta mão de obra para construção civil e outros setores, mas, ao mesmo tempo, parece que cresce o número de flanelinhas e de gente com malabares nos sinais em busca de alguns trocados.
Falta uma ponte entre as duas extremidades ou falta vontade de trabalhar? Falta qualificação? Como um cara como o "meu" guardador pode fazer para sair das ruas? Será que ele quer sair?
Na quarta-feira também aconteceu uma cena bizarra. Eu estava num sinal de três tempos, desses demorados, e passou um cara mais velho, mal vestido, falando que ninguém dava dinheiro para ele, que as pessoas tinham medo dele e que ele estava desde 4h lá sem ganhar um centavo (já eram quase 7h da noite). Podia ser um golpe de marketing, mas seu discurso gritado enquanto passava me comoveu e procurei correndo ao menos um centavo para lhe dar. O sinal abriu e quando vi que não encontrava minha carteia dei-lhe minha vasilha de plástico com biscoitos que tinha levado para o trabalho de manhã. Não sei se ele ficou contente, se gostou dos meus biscoitos integrais, mas pelo menos alguém não lhe foi indiferente. certo?