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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Marcado a fogo

Foto Edson Rodrigues/Secom-MT
É com pesar que informo a quem lê meu blog de longe que Mato Grosso está pegando fogo, no sentido literal. 
Ontem teve um incêndio horrível em Marcelândia (700 km ao Norte da capital). Os jornais e sites falam em aproximadamente 100 casas e  15 madeireiras queimadas. O fogo teria começado numa pastagem e sido levado pelo vento até a área industrial da cidade, causando pânico na população e deixando um rastro de destruição. (Retificação: segundo o site SóNotícias, o fogo teria começado no lixão da cidade).
Não conheço Marcelândia, mas é um município de história triste, que vem sendo detonado em todas as operações do governo federal de combate à extração ilegal da madeira. Soube que a administração municipal vinha se empenhando para tirar o município da lista de maiores desmatadores, mas não posso informar sobre as ações realizadas porque, como já disse, não estive lá, infelizmente. 
Isso não impede que eu me sensibilize com as notícias e me compadeça das pessoas, principalmente dos idosos e crianças afetados pela fumaça e fuligem do fogo. 
Cuiabá, hoje, também está horrorosa!  É impressionante como cresceu o número de focos de fogo no entorno e como o céu está "sujo" com a fumaça que vai asfixiando a cidade e nos deixando deprimidos diante do que vem pela frente. Afinal, o pico dessa situação costuma acontecer em setembro e, dificilmente, teremos chuva antes disso. 
Hoje eu me lembrei de um funcionário da Secretaria de Meio Ambiente de Sinop (a 210 km de Marcelândia), que conheci em agosto do ano passado, durante reportagem na região. Ele era um dos mais entusiasmados com o esforço para evitar as queimadas  no  período da seca de 2009 e me contou que tinha horror ao fogo. Quando era menino, seu pai tinha perdido tudo (serraria, economias) num incêndio. Aquele episódio marcou a vida do rapaz, já que sua família nunca voltou a ter a situação financeira de antes. 
Fico pensando em quantas histórias semelhantes não estão acontecendo em Marcelândia e outros municípios sob a pressão do fogo. São vidas marcadas a fogo. Até quando?


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Poluição

Os meses de agosto, setembro e outubro são tradicionalmente os mais difíceis em Mato Grosso por causa da seca e do calor intenso, ao qual se juntam a poeira e a fumaça das queimadas.
Em setembro de 2007, a situação em Cuiabá e outros municípios (onde se queima bastante) ficou insuportável. Mesmo na capital, a gente mal via os prédios mais próximos por causa da cortina de fumaça e fuligem que tudo cobria, tornando o ar irrespirável, pesado e deprimente.
Nos últimos anos um grande esforço foi feito por parte das secretarias de Meio Ambiente (estadual e municipais) e da Defesa Civil para coibir as queimadas e amenizar o quadro no período da seca. Alguns municípios, como Sinop (a 470 km de Cuiabá), onde sempre se queimou muito, conseguiram reduzir drasticamente o número de focos de fogo. Estive lá (e em outros municípios do Médio-Norte mato-grossense) em agosto passado e o céu estava surpreendentemente azul e límpido.
Este ano, desde maio, os sinais de que a situação poderia ficar tão ruim quanto em 2007 vêm sendo dados pelos agentes responsáveis pelo controle do fogo. Eu mesma já fiz uma matéria a esse respeito na edição de junho da revista Produtor Rural, mas parece que a imbecilidade humana não tem limite e as pessoas continuam queimando. É bem verdade que há excesso de material combustível acumulado, o que aumenta o risco de fogo independentemente da decisão de queimar das pessoas, como alertou o major do Corpo de Bombeiros, Agnaldo Pereira de Souza, superintendente da Defesa Civil de Mato Grosso.
De qualquer maneira a situação preocupa, ainda mais que este ano temos outros focos de poluição (visual e sonora) por causa das eleições de 3 de outubro. Vou ter que praticar muita yoga e talvez recorrer a outras técnicas de relaxamento para suportar o período que vem pela frente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Reforma agrária

Acabei de ler sobre a pesquisa feita pelo Ibope por encomenda da CNA em assentamentos rurais, segundo a qual 40% dos assentados pela reforma agrária vivem em situação de extrema pobreza (para maiores detalhes, conferir o site www.cna.org.br). O MDA e o MST já tiveram a reação esperada: a de desqualificar a pesquisa por ter sido encomendada por uma entidade ligada a grandes produtores.
É engraçado esse lance de pesquisa: elas só são dignas de credibilidade quando mostram a verdade que a gente quer.
Não vou entrar nessa discussão; quero dizer que desde que vim para Mato Grosso há 21 anos mudei muito a minha concepção sobre MST, reforma agrária, etc. Isso não aconteceu porque trabalho numa revista da Famato. A sede do Incra ficava pertíssimo da minha casa em Cáceres e tive o desprazer de ter um acampamento do MST na minha rua dias a fio. Alguém há de dizer que os sem-terra pertubaram a minha comodidade pequeno burguesa. Não nego, mas percebi naquele momento que muita gente estava ali não porque tinha perfil de agricultor e sim por falta de opção. Muitos homens ficavam jogando cartas o dia inteiro e era impossível para as mulheres passarem pelo acampamento sem serem assediadas de forma grosseira.
Na mesma época fui percebendo que havia uma baita corrupção em torno da desapropriação de terras. Muitas fazendas desapropriadas não ofereciam a mínima condição de sobrevivência aos assentados (como recursos hídricos), que eram jogados lá sem qualquer assistência por parte do governo. Havia supervalorização das terras para que alguns ganhassem fortunas em detrimento da execução da reforma agrária.
Tudo isso foi me fazendo ficar descrente do MST. Como em qualquer movimento, há pessoas bem intencionadas, mas muita gente ganhava lote e vendia: alguns por não conseguirem tirar o sustento da terra obtida; outros por falta de vocação para lidar com a terra mesmo.
Após seis anos trabalhando na revista Produtor Rural, eu tiro meu chapéu para o agricultor, seja ele pequeno ou grande. Nos últimos meses, visitei assentamentos no norte de Mato Grosso e vi com meus próprios olhos o que já imaginava: tem muita gente boa assentada, que quer plantar, viver da terra, mas poucos assentados obtêm o mínimo de recursos necessários. Eles reclamam do governo e principalmente do Incra, órgão que, na minha modesta opinião, deveria ser detonado. Os próprios assentados que querem trabalhar na terra reclamam que muitos de seus vizinhos não trabalham. Um agricultor da Gleba Mercedes, um assentamento antigo de Sinop, chegou a me dizer que se admira de vender seus ovos e seus frangos para os vizinhos. Se ele pode criar galinhas, tirar leite, cultivar verduras, por que os outros não podem?
Provavelmente, porque não têm vocação para lidar com a terra e não conseguem tirar o mínimo para sua sobrevivência. Ou seja, muitos assentamentos viraram favelas rurais. O governo fica "bonito" na foto porque distribuiu não sei quantos hectares de terra, mas na verdade apenas tirou da cidade (em termos, já que muitos assentados trabalham nas cidades próximas) alguns ativistas do MST e outros movimentos semelhantes.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Fim de reportagem

Hoje terminei minha reportagem na região centro norte de MT. Terminei é modo de falar, o mais certo seria "dei por encerrada". A gente sempre tem o que apurar, mas conseguimos bom material e temos limite de tempo e espaço.
O dia foi bem variado. A manhã começou meio angustiante porque eu não conseguia entrar em contato com as duas pessoas com quem eu tinha ficado de falar em Sinop. Acabei me encontrando com eles no Sindicato Rural. Depois demos um giro na cidade com o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, que é também produtor rural. Fomos ao Horto Florestal para fotografá-lo e fiquei encantada com o lugar. Até peguei uma arara! O Zé Medeiros tirou a foto e assim que ele me passar, provo para vocês. Fiquei com medo de ter uma arara nos braços, mas ela parecia tão calma e amistosa que me atrevi a viver essa experiência. Depois que o Zé fez a foto quis passá-la para o braço da supervisora do Horto, mas ela - a arara - não quis ir (acho que ela gostou de mim). O jeito foi me aproximar do ferro da lata de lixo e aí ela resolveu mudar de poleiro.
Percorremos outros lugares para que o secretário Rogério nos mostrasse várias provas do esforço da atual administração para resolver o problema do fogo na cidade, que disputou num passado recente a triste liderança em número de focos de incêndio no período da seca.
Após o almoço numa churrascaria, fomos visitar um assentamento rural (a Gleba Mercedes) - mais um caso de abandono pelo Incra. Conheci pessoas incríveis como o seu Valdemar e sua mulher, na casa de quem comemos queijo. Ouvi uma fala linda sobre o que é sustentabilidade. São pessoas como ele que deveriam estar nos eventos falando sobre o tema e não gente que vive na cidade, no maior conforto.
Retornamos ao hotel por volta de 7h da noite bem cansados e amanhã volto pra casa. Estou feliz por rever minhas filhas e retomar algumas coisas da minha rotina, mas, sinto que vou estranhar voltar a Cuiabá, aquela cidade grande e hoje abalada pelo escândalo dos políticos e empresários presos sob acusação de roubo nas obras do PAC. Gente graúda e que costumo encontrar (alguns dos acusados) sempre ligada ao poder e a muita grana. Será que ficarão presos? Será que devolverão o dinheiro roubado? Enquanto isso, pessoas como seu Valdemar ralam pra caramba para sobreviver como assentado.

domingo, 9 de agosto de 2009

O maior pé de soja solteiro do Brasil

Domingão, dia dos Pais, e cá estou em Sinop, a "capital" do Norte de Mato Grosso. É uma cidade bonita e na frente do hotel onde nos hospedamos, Ucayali - outro nome indígena, cujo significado ainda não sei - tem uma praça bonita, onde vi jovens reunidos no final da tarde. Mas, agora, apesar de estar no quarto fechado e com o ar condicionado ligado, ouço o som do pancadão, provavelmente vindo de algum carro da moçada. Argh!
O meu dia foi bastante rural, embora tenha almoçado na cidade numa cantina italiana, onde pretendemos comer algo daqui a pouco. Saímos de Sorriso não muito cedo e viemos parando para que o Zé - o fotógrafo José Medeiros - tirasse fotos das obras na BR-163, que liga Cuiabá a Santarém (PA) e é estratégica para o agronegócio mato-grossense.
Fomos direto para Santa Carmem, município situado a 32 km de Sinop, onde conhecemos e fotografamos o "maior pé de soja solteiro" do Brasil. Imagine se fosse casado! Maiores detalhes dessa e outras histórias poderão ser conhecidos na reportagem que estou fazendo para a revista Produtor Rural.
A ideia era almoçar em Santa Carmem e nosso anfitrião, o secretário de Agricultura local, nos largou na porta de um "restaurante" e ficou de nos encontrar mais tarde (afinal, era Dia dos Pais). Só que a dona disse para nós que não tinha mais comida (detalhe: era meio dia). Outros restaurantes vistos no caminho estavam estranhamente fechados e por isso o jeito foi voltar para Sinop.
Mais tarde o secretário me ligou tentando me convencer a deixar a reportagem para amanhã, porém já tínhamos assumido outros compromissos em Sinop para amanhã e resolvemos ir sozinhos a um assentamento rural onde alguns agricultores familiares estão tendo sucesso num plantio de pepino para conserva. Foi muito legal! O Zé fez fotos maravilhosas (pra variar) e encontrei bons personagens, gente rodada, desgastada pelas agruras da vida e pelo trabalho de sol a sol, porém surpreendentemente feliz e animada com as perspectivas, apesar de todas as dificuldades impostas pela burocracia, pela omissão do Incra, etc.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Rumo ao Norte

Amanhã vou viajar a serviço da revista. Sigo em direção ao Norte de Mato Grosso. No roteiro, cidades já mais conhecidas e estruturadas como Sinop e Sorriso, e outras menos conhecidas - mesmo entre os mato-grossenses - como Nova Ubiratã, Santa Carmen e Feliz Natal.
Minhas parentes que moram em outros estados se divertem quando menciono nomes das cidades que visitei ou vou visitar. Adoraria ter o prazer de poder dizer que conheço os 141 municípios mato-grossenses, mas estou longe dessa marca. Mas agora estamos iniciando um projeto na revista Produtor Rural que, se der certo, poderá me levar literalmente a conhecer um pouco de todas as regiões do estado.
Torço para que dê certo.
A ideia de ficar fora de casa por alguns dias me seduz e me angustia, ao mesmo tempo. Adoro viajar e sair da rotina, mas me aflige um pouco me afastar de casa e deixar minhas "meninas" (duas moças de 17 e 19 anos) por sua própria conta, mesmo que eu saiba que, nessa idade, muitas mulheres já são mães e cuidam de suas próprias casas.
É isso aí. Vou levar o notebook e tentar atualizar o blog, como num diário de bordo.