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terça-feira, 20 de julho de 2010

Peça de museu

Volta e meia eu me sinto (com um sentimento dúbio de orgulho e pesar) como uma peça de museu. 
Tive essa sensação há algumas semanas num almoço com jovens colegas de trabalho. O assunto era futebol e, naturalmente, Copa do Mundo. Comecei a falar do livro que estou lendo ("Quem derrubou João Saldanha" do meu colega da ECO-UFRJ Carlos Ferreira Vilarinho), da Copa de 70 e do contexto político da época. Todos me ouviram com cara da espanto. Nunca tinham ouvido falar em João Saldanha e quando mencionei o livro de Fernando Gabeira ("O que é isso companheiro?") para falar da pressão da esquerda para que torcêssemos contra o Brasil por medo do uso político da vitória brasileira pela ditadura só compliquei mais a cabeça dos meus ouvintes. Resolvi fechar a boca e comer. 
Há poucos dias em Paragominas (PA) voltei a ter a mesma sensação: visitei um museu muito bacana numa indústria local e vi catalogados - para espanto das novas e futuras gerações - objetos que já usei: telefone discado (ai que saudade ...), máquinas de escrever, ferro de brasa (esse fui conhecer na minha passagem pelo Pantanal  de Cáceres no final dos anos 1980), revistas Cruzeiro, etc. 
Ao mesmo tempo que dá um certo sufoco sentir que o tempo passou, dá uma alegria imensa recordar tudo que vivenciei. 
A gente só vira peça de museu se botar uma âncora no passado e não perceber o momento de calar a boca e deixar que os jovens descubram as coisas sozinhos.

sábado, 17 de julho de 2010

Saudades ... do Pará

Acabei de chegar em casa e não resisti a atualizar meu blog.
Hoje tive um dia cheio. Conheci o Mercado Ver-o-Peso. É muito bacana! É grande e dividido por, digamos, temas. Tem uma parte só de barracas de açaí e peixe (o paraense come peixe frito com açaí), outra só de camarões, outra só de farinhas, outra só de castanhas, outra só de polpa de frutas, outra só de artesanato e assim por diante.
O ambiente é tenso (os donos das barracas nos alertam para a presença de ladrões) e divertido, ao mesmo tempo. A gente acaba comprando os artigos dos vendedores mais simpáticos. Tomei suco de graviola, comprei castanha de caju e do Pará, cheiro do Pará, farinha e tapioca, e acabei resolvendo seguir o costume da terra e comer peixe com açaí numa dessas barracas. Detestei! O peixe (pirarucu) estava muito salgado e confirmei que realmente não gosto de açaí. Mas o Sol (o fotógrafo) que gosta também não gostou. Segundo ele, o açaí de lá é diferente do açaí daqui. Mas foi agradável ver o prazer com que as pessoas comiam aquela estranha mistura. Ah, não provei pato no tucupi, nem tacacá, mas comi muito peixe, camarão e frutos do mar.
Andamos bastante, entramos no Museu do Índio, no mercado do peixe e curtimos aquela estranha mistura de sons, cheiros e sotaques. Tinha muito gringo no mercado. Reencontramos as duas espanholas e a brasileira que tínhamos conhecido na véspera e nos cumprimentamos como se fôssemos velhas conhecidas.
Depois corremos para conhecer o Forte do Presépio (linda a vista) e a Casa das Sete Janelas, que é maravilhosa. Lá tem um restaurante charmoso e eu perguntei ao garçon se era meio caro ou muito caro. Ele respondeu: "Caríssimo". Mas, se você tiver com grana vale a pena.
Depois disso corremos para devolver o carro e chegamos ao aeroporto três minutos antes da hora prevista, ou seja, em cima da hora. O voo atrasou bastante e fiquei conversando com uma paraense super legal que mora em Brasília e ela me contou sobre um passeio lindo que fez a uma praia na ilha de Icutijuba (acho que é isso). Chega-se lá de balsa e, segundo ela, lá não tem carro e o banho é ótimo.
Fiquei morrendo de vontade voltar ao Pará. Achei as pessoas muito simpáticas em geral. Agora continua forte a impressão de uma cidade de muitos contrastes: tem muito morador de rua, muita gente bem judiada (com cara de bêbado, largado), sem dentes ou com caquinhos de dentes. Mas realmente lá tem muitos pontos turísticos a serem visitados.
Ontem à noite fomos à Estação das Docas, um lugar muito bonito e bem sacado. Onde eram antigos armazéns foram construídos bares, restaurantes e lojas - um centro de lazer à beira da baía do Guajará. Parece que você está em Puerto Madero em Buenos Aires, mas tem hora que lembra a orla de Miami. O ambiente é climatizado e fica colado ao Mercado Ver-o-Peso, mas a maioria dos frequentadores é de classe média e alta.  Vale a pena conhecer os dois lugares. 
Estou feliz de estar de volta à minha casa (ainda mais que vou passar o dia com minha filha "jabuticabense" amanhã), mas confesso que já estou com saudades do Pará.
PS.  Assim que o Sol me passar as fotos, vou postar umas fotos minhas no Pará.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Bicho da goiaba

Apesar de estar tão longe de casa, das minhas filhas e atividades diárias, estou feliz. Acabei de comer uma goiaba vermelha (a segunda do dia) que trouxe de uma fazenda visitada e estava empolgadíssima com a fruta (amo goiaba!) até encontrar um bichinho. Argh! Não consegui continuar comendo. Eu me lembrei de Bel, minha sobrinha e amiga, que tem uma história ótima sobre o tema em seu primeiro livro. Lembrei-me também do conselho do Sol, meu colega de viagem:"A gente deve comer a goiaba de olhos fechados para não ver o bicho".
Meu segundo dia em Paragominas foi bem diferente do programado, mas isso faz parte do meu trabalho. O produtor que nos levaria para sua fazenda nos deixou a ver navios. O que deveria nos atender amanhã apareceu hoje e na parte da tarde acabamos indo à casa e depois à fazenda de outro que nem estava previsto na história. Fomos surpreendidos por um temporal (com raios e trovões) que nos obrigou a uma paradinha para um café delicioso na bela sede da fazenda. Voltei para o hotel no fim da tarde com a sensação de como é boa minha profissão, que me leva a conhecer tantos lugares diferentes e ficar inesperada e momentaneamente tão "íntima" de pessoas que talvez nunca mais vá reencontrar.
Amanhã é nossa intenção visitar uma indústria moveleira (que trabalha com madeira de reflorestamento) e depois seguir viagem para Belém. Acabei de ouvir uma reportagem assustadora sobre o aumento de acidentes nas estradas paraenses, principalmente na BR 316, que nos levará à capital. Todo cuidado é pouco.

PS: O livro mencionado acima chama-se "As estrelas não dormem" e a personagem em questão é a Mariazinha da Goiaba.